O valor de nossas elites

Desagrada-me, não sei se estética ou apenas politicamente, a expressão agregar valor. Que, na linguagem pobre e desatenta de muitos (permita-me, Élio Gaspari) çábios, coloca o substantivo no plural. Dou-lhes o favor da dúvida, para admitir a improvável inclusão de valores que a moeda não mede nem expressa. Mera justificativa, este introito antecipa comentário sobre matéria lida em exame.com, referente à qualidade da elite brasileira. Sabe-se, lá, que Singapura, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos da América do Norte e os países escandinavos encabeçam a lista dos países cujas elites geram valor para a sociedade. Atrasados na fila, nossa posição é bem distante dos primeiros, pelo menos, além da Arábia Saudita, México, Rússia, Índia e Botsuana. Do BRICS, só a África do Sul enxerga nossa nuca. Os pesquisadores Tomas Casas e Guido Cozzi, da Universidade suíça Saint Gallen, usaram 72 indicadores para comparar 32 países. Em livro (Sete mentiras capitais)lançado no final de 2018, mostrei quanto a concentração da riqueza e a miserável devolução dos impostos sob a forma de serviços públicos à sociedade é motivo de vergonha para os brasileiros que a têm. Mas não se restringe a esse aspecto meramente moral a perversidade de nossas elites. Sustenta-o o patrimonialismo tradicional, de que o tratamento ainda hoje dispensado aos pretos é outro dos ingredientes. A muitos desagradará a condenação aos favores fiscais generalizados, promotores de acumulação extraordinária, cada dia retida em menos mãos. Como, destoando da Colômbia e da Bolívia, parece impossível até mesmo cogitar da criação do imposto sobre grandes fortunas. Dos cinco países do continente americano (Estados Unidos, Canadá, México, Brasil e Argentina), só os vizinhos platinos estão atrás de nós. Eles ocupam o 31º lugar; nós o 27º. Não se diga que à desigualdade é dada importância demasiada, pelo menos na matéria ora comentada. Nem que os autores da pesquisa estejam preocupados em substituir o neoliberalismo. Tanto, que sua análise tem em vista o que chamam modelo de negócios. Isso quer dizer práticas próprias do mercado, uma espécie de pacto entre governos, empresas e sociedade, para fazer girar a roda que cria a riqueza. E promover distribuição dos resultados de forma menos perversa. A partir de janeiro de 2021 os pesquisadores pretendem ranquear os países, anualmente. Quantos se interessarão por acompanhar o comportamento de nossas elites? É o que veremos.

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