top of page

O tempo como mediação social: diálogo entre Santo Agostinho e Georg Lukács

2 de set.
4 min de leitura

Por Política e Resenha postado em 29 de agosto de 2026 às 18:10


Marcelo Seráfico e José Alcimar*


“Tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.”

— Antonio Candido

Por que não imaginar um diálogo entre Santo Agostinho e Georg Lukács em torno do “ser social”, um ser que se “distende no tempo”, portanto se objetiva na História? Sem que pudesse fazê-lo, porque impedido pelo tempo — sempre histórico —, Santo Agostinho, o Mestre de Hipona, ao pensar o tempo como distentio animi (distensão da alma), já não estaria, avant la lettre, na contramão daquilo que o capitalismo, dezenas de séculos depois da publicação de As Confissões, vai fazer com o tempo, ao comprimi-lo pela inexorável lógica da produção e do consumo?

Há, na férrea lógica do sistema do capital, lugar para o tempo como distensão da alma? Em lugar da distentio animi, o que de fato prevalece é a compressio animi — a compressão da alma.

O tempo não é apenas uma medida. É o espaço histórico no qual o ser humano se forma, age, trabalha, ama, pensa, cria cultura e constrói possibilidades de existência.

O tempo como formação do ser social

As reflexões aqui apresentadas, pensadas e escritas por nós — e contra os nós — e a quatro pés, quatro mãos e duas mentes, porque a cabeça deve pensar desde os pés, querem pensar o tempo como espaço da formação do ser social e no horizonte do materialismo histórico e dialético, sem o que restará somente o tempo expropriado de conteúdo humano, sem distensão nenhuma, inclusive a agostiniana, e impossibilitado de humanização.

A questão filosófica e científica a responder, e que nos inquieta, passa a ser: o tempo se distende e realiza como o quê?

Como luta, diria Marx; como ação, diria Weber; como coesão, proporia Durkheim. O social como realização das possibilidades humanas de reproduzir-se no tempo, como espécie biológica e como espécie capaz de compreender e conferir sentido racional à sua existência e ação.

Como libertar o tempo da tirania do capital?

Como libertar o tempo da tirania que lhe impõe o poder do capital? Mais do que formas de sensibilidade a priori e abstratas, como quer Kant, tempo e espaço são categorias históricas e constitutivas do ser social.

Até mais importante do que o espaço — por que de que vale ter espaço sem que nos apropriemos do tempo? — é somente pela categoria tempo que nos fazemos e nos apropriamos do espaço humano.

Tempo e espaço não são realidades neutras. São dimensões nas quais se desenvolvem as relações sociais, os conflitos históricos, o trabalho, a cultura e as possibilidades de emancipação humana.

Política, religião, ciência e cultura no tempo

A política, a economia, a religião e a ciência seriam, assim, formas específicas de lutar, agir e coexistir no tempo e no espaço, em face das múltiplas e complexas diferenças entre as tantas espécies constitutivas do real e dos impasses desencadeados pelas dificuldades com que cada uma delas se defronta para satisfazer suas necessidades e, no caso dos humanos, transcendê-las.

É no processo de apropriação e uso da natureza, ao longo do tempo, que o Homem altera sua própria natureza e produz a cultura, da qual mitologia, religião, ciência, política e filosofia são constituintes. E o faz de acordo com circunstâncias que não escolhe, sempre herda, como alertava Marx com a lucidez que lhe era peculiar.

Trabalho, alienação e a compressão da existência

O tempo reduzido à rotinização sisífica, como o que é requerido e controlado pela forma alienada do trabalho prevalente no capitalismo, esse tempo não nos permite afirmar e alargar aquilo que o velho Mouro de Trier denominava de ser genérico humano.

Trata-se do confronto entre a omnilateralidade e a unilateralidade. A primeira significa abertura de possibilidades e vai ao encontro da distentio animi de Agostinho e do ser social em Lukács.

A segunda é a que sacrifica nosso ser genérico e nos conforma à uniformidade improdutiva do trabalho alienado, tornando-nos funcionais em relação aos fins do sistema e extraviados de nós mesmos, encarcerados na jaula de ferro aludida por Weber ou na jaula de vidro denunciada por Nicholas Carr.

“Entre a distensão da alma e a compressão da existência, encontra-se uma das grandes questões do nosso tempo: quem controla o nosso tempo controla, em grande medida, as possibilidades da nossa própria vida.”

Agostinho e Lukács: uma ponte entre o sagrado e o profano

Encontrar e buscar sentido para essa distensão da alma no tempo se torna um esforço simultaneamente existencial, em sentido filosófico e religioso, e epistemológico, quando visto pelo prisma do entendimento racional-científico.

Que bela e fecunda ponte essa entre o Santo e os profanos! Agostinho não se fará ateu ao visitar o ser social lukácsiano e, menos ainda, Lukács tornar-se-á religioso ao reconhecer o potencial epistemológico que a distentio animi agostiniana nos oferece.

Ela é que permite atravessar com alguma calma as turbulentas águas da estupidez irracionalista contemporânea, o desbunde pós-moderno.

________________________________

* Marcelo Seráfico e José Alcimar são professores da Universidade Federal do Amazonas. Marcelo Seráfico, do Departamento de Ciências Sociais, e José Alcimar, do Departamento de Filosofia. Ambos, cultores da distentio animi e no contracurso da unilateralidade capitalista.


Agosto de 2026.

Blog Política e Resenha

Política e Resenha

Posts recentes

Ver tudo
A mente escura mente

Vicente Nogueira• Sinceramente, se fosse possível, eu gostaria de passar alguns minutos na mente do eleitor de Flávio Bolsonaro no Amazonas. Penso que seria um experimento sociológico fascinante. Ess

 
 
 
Nem precisa dizer nomes*

Samuel Hanan** É preciso dizer com todas as letras: os três poderes da República e suas mais importantes instituições sucumbiram. Não se trata de discurso eleitoral ou indignação seletiva, mas da grav

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page