O rei e sua nudez

As gerações nascidas após a queda do Império não puderam testemunhar os costumes e hábitos da Corte. Terão sido informadas da vida daquele tempo pelo estudo da História. Livros e filmes, melhores que sejam não conseguirão superar o contato direto com a realidade. O que jamais poderiam suspeitar os que vieram ao mundo após a derrubada de Dom Pedro II, era da possibilidade de lhes serem postas diante dos olhos situações dignas daqueles tempos.

Mesmo a época dos déspotas esclarecidos , mais antiga ainda que nosso Império, avança até nós. Se não é o contrário: vamos buscá-las no fundo dos tempos. Já não são mais os Bourbons ou os Bragança que terçam sua espadas ou os Stuart e os Windsor que põem veneno na comida um do outro. As casas agora são outras, como diferentes são os produtos usados para envenenar ou dar fim aos inimigos.

Mensagens espalhadas via internet, entrevistas nos avelhantados meios de comunicação e recados cifrados proferidos nas tribunas ganharam a preferência das casas reais. Reais, não porque azul é o sangue de qualquer delas. Nem porque tem esse nome o produto de seu consumo inveterado e voraz. Fruto de fatos palpáveis traduzidos na trama abjeta que os levou e agora ameaça tirar do poder, os monarcas tratam de criar a aristocracia que a História lhes nega. Praticam o despotismo, ainda que sem nenhum esclarecimento. Antes, funda-se na ignorância e na hostilidade a tudo quanto levou o bípede a ser chamado humano, o sistema inventado por essas casas insanas.

Digladiam-se entre si, na mais flagrante exposição de seus vícios, em nada diferentes da plebe ignara que parece encantada pelos sortilégios apresentados no ponto mais alto da corte. Nem faltam os bobos, pois eles legitimam o (mau) exercício do poder. Aplaudem quando é hora de chorar, elogiam quando a admoestação é devida, riem o sorriso próprio aos bobos, embora caísse bem lamentar.

Inebriada, essa parte da patuleia (com perdão do Elio Gáspari) sequer pensa no dia de amanhã. Ou será que, sábios mais que todos nós, percebem que não haverá amanhã?

Aos que veem claros os contornos da grotesca figura imperial e nela sentem posta toda a essência que lhes frequenta (embora raramente) o cérebro e o coração, resta o consolo de constatar a nudez do rei.

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