O problema


Atribuir aos antecessores as dificuldades encontradas para governar é prática das mais arraigadas nos costumes de nossos políticos. Qualquer que tenha sido o antecessor, quaisquer que sejam os resultados dos governos anteriores, sejam quais forem os índices de aprovação dos antigos governantes, quem chega logo trata de buscar um álibi. Mesmo aqueles que se consideram aptos a exercer com eficiência, proficiência e decência o mandato para o qual foram eleitos incidem nesse costume.

É o que vulgarmente se chama carta de seguro. O governante recém-empossado parte do pressuposto de que todo cidadão é imbecil. Assim, fica fácil levá-lo no bico – como também diz a voz do povo. Então, trata de pôr abaixo tudo quanto tenha sido feito pelos que vieram antes, geralmente ignorando os aplausos populares pelos benefícios colhidos. Ainda que tais benefícios, como se pode constatar mais recentemente, tenham a mesma solidez de um castelo de cartas.

Quando é o próprio recém-empossado quem confessa sua incompetência, o que poderíamos esperar? Nada mais, nada menos do que testemunhamos, entre a vergonha e a perda de esperança acumuladas nos meses decorridos de 2019.

A queimada de boa parte do território da Amazônia foi obra do Partido dos Trabalhadores e dos ex-Presidentes a ele vinculados. A tragédia de Brumadinho deve ser atribuída aos últimos governos de Minas Gerais, entregues a políticos do PT e do PSDB. A violência que mata negros, homossexuais, mulheres, não resulta se não de políticas implementadas pelos que governaram antes de 2019. Não importa se o Estado do Rio de Janeiro bate sucessivos recordes traduzidos em números. Até a economia, entregue, segundo os novos detentores do poder, à genialidade de um ex-assessor do ditador Augusto Pinochet, ostenta e amplia déficits pelos quais os outros devem ser responsabilizados.

Não obstante, a nação desfaz-se de expressiva parte do patrimônio social e natural que a tornou em certo momento a 7ª economia do mundo. A perda desse patrimônio para entregar os recursos gerados à banca internacional equivale à venda de bem capaz de atrair o interesse dos investidores, não apenas para tapar os buracos. É como se guardássemos os anéis, desfazendo-nos dos dedos. Aqui, como na política tributária praticada há décadas, obra de ousado Robin-Hood. Tudo quanto a natureza colocou em nosso território passa a ter um valor de venda. E tão-só. Essa parece a esdrúxula concepção dos atuais gênios de nossa economia.

Pior, as alternativas costuradas e adotadas já se provaram incapazes de resolver o problema de outras nações.

Para complicar ainda mais nossa tragédia, os que deveriam, por dever legal e constitucional, encontrar alternativas que nos tirassem da enrascada, optam por agravá-la. Ora, fechando os olhos para a realidade, ora incidindo em erros mais graves que os apontados nos que lhes não são simpáticos.

É o caso do Presidente Jair Bolsonaro, ele por si só um dos mais graves problemas que o Brasil enfrenta. Das promessas que o levaram à rampa do Planalto, a proibição de reeleição foi mandada às favas. Das razões para justificar a mudança (?) sabe-se apenas da disputa pela dinheirama para o PSL. O Presidente não deseja mais ficar no partido que o acolheu para candidatar-se, porque o mau cheiro exalado parece incomodá-lo. Não quanto à natureza dos ilícitos atribuídos aos seus hospitaleiros aliados, mas aos riscos que o mau cheiro traria para o propósito de disputar a reeleição.

Assim, de onde deveria vir a solução, vem a maioria dos problemas.

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