O prato e o cuspe

Até certo ponto, surpreendi-me com a votação do atual Presidente da República, na eleição de 2018. Logo eu, que pensava não ter mais idade para ser pego de surpresa! Afinal, quase 60 milhões de votos não é cifra trivial. Só mais tarde descobri quanto o ódio produz, punindo uns, aproveitando a outros. Também pude avaliar o peso das encenações e outras formas de falseamento da verdade, no processo político. No momento eleitoral, especialmente. Não imaginaria, já conformado com a escolha dos eleitores, e atribuindo sua decisão - mais indesejada por mim e lamentável que fosse - às peculiaridades do regime democrático. Teve mais votos, leva - princípio para mim irrecusável. Ainda mais diante do reconhecimento generalizado da lisura que presidira o pleito, no que toca à coleta e contagem de votos. Para isso serve a tecnologia. Eis que novamente me pego surpreso! O beneficiário da limpeza prevalente no registro e na contagem ergue-se contra a urna eletrônica, sem a qual, admitamos, algum espírito de porco sabedor de todos os antecedentes do candidato afinal eleito talvez tentasse barrar-lhe os passos. Sem dúvida, uma ofensa à democracia, além de submeter os meios aos fins desejados. Vença o que mais votos tiver, obedecidas todas as regras do jogo, desde o anúncio das candidaturas até a posse dos eleitos. Ponto. A surpresa de agora se faz acompanhar de crescente dúvida: terá razão o Presidente em condenar a urna eletrônica louvada por outros países e endossada por pessoas e profissionais da mais alta qualificação? Embora resistente em apontar as razões em que se louva, seu apego e uso avantajado de mecanismos eletrônicos para disseminar o ódio podem ser levados em consideração. Por isso, o que ontem o beneficiou passa a ser ameaçador, por melhor que seja - para as eleições e para o País. É como cuspir no prato de que se alimentou.

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