O povo contra a democracia - conclusão

É na última Parte (de número 3, Remédios) que o livro apresenta suas recomendações ou, no mínimo, suas cogitações voltadas para a superação da crise: a domesticação do nacionalismo, o conserto da economia e a renovação da fé cívica.

Antes mesmo de referir-se aos três remédios, na parte introdutória, é relatado o fenômeno Park Geun-hye, conhecida também como Rainha das eleições, na Coreia do Sul. Vitoriosa na disputa presidencial, cujo pai general havia participado de junta militar que governou o País por doze anos, Park acabou juntando-se à elite empresarial, após mostrar a face populista com que enganou o povo. Park foi deposta ao final de processo de impeachment. Corrupção e abuso de poder puseram-na a perder.

Não faltam, nessa introdução aos Remédios, comentários sobre a situação na Turquia, Rússia, Venezuela, Suécia, França, Espanha, Índia, Estados Unidos, Hungria, Polônia, Áustria, Alemanha, Reino Unido, União Europeia. Para mostrar quanto os países se vão alinhando a uma espécie de percepção e vontade únicas.

Chama a atenção do leitor, logo à primeira linha do texto sobre o nacionalismo, a contundência da expressão: Não existe nada de natural no conceito de nação. Tal conceito, para o autor, não é senão um projeto das elites. Não obstante, ele avança na sua apreciação e chega à conclusão de que o nacionalismo parece estar destinado a ser no século XXI o que foi nos séculos XIX e XX: a força política mais decisiva de sua época.

O conserto da economia, por sua vez, parte do reconhecimento de uma sensação geral de desesperança econômica. Aqui merece destaque a extraordinária e obscena (digo-o eu) desigualdade apontada por Mounk, fenômeno de que o Brasil é exemplar. Números relativos aos favores fiscais em contraponto aos ônus sobre os mais pobres também são apresentados, no país onde vive o alemão autor do livro, inclusive.

O que recomenda, então, Yascha Mounk? Nada mais, nada menos que um estado de bem-estar social moderno. Nada que não possa frustrar-se, diante do que se sabe sobre muitos dos países da União Europeia, um dia louvados pelo wellfare state.

A renovação da fé cívica não difere muito das prédicas de Adolph Hitler para seus meninos e rapazes da Juventude Hitlerista. Uma espécie de sistema educacional capaz de gerar cérebros iguais, pensamento único, militarização e absoluta submissão aos propósitos das elites que mandam.

Assim, ao longo da leitura se foram formando em mim as impressões abaixo registradas, nenhuma delas postas de forma irreversível. Desde que, é claro, fique evidenciado qualquer equívoco em que incorrerem.

Tais são minhas impressões:

1. De qual democracia fala o autor? Isso não ficou suficientemente claro. Se é do “modelo” norte-americano, minhas restrições começam por aí. Vejo contradição não-resolvida entre democracia e capitalismo (ou neoliberalismo, seja o nome que se der à atual forma predominante de acumulação).

2. O autor aparenta criticar o capitalismo e condenar a influência do dinheiro na manifestação da vontade dos cidadãos nas eleições periódicas, mas não sugere nada que possa alterar tal situação. Não sabe, não imagina ou não o deseja?

3. Ao preocupar-se com a formação dos futuros guardiões das liberdades do País”, lembra o Führer.

Meu pressuposto básico, fundamental, é o de que os fundamentos do capitalismo correspondem ao que de pior pode ter o ser dito humano: a agressividade contra tudo quanto não lhe agrada individualmente; o escasso sentido de vida em comunhão, coletiva; exagerado egoísmo, que toma todo e qualquer outro como competidor e concebe a vida humana como não a concebem os outros animais da natureza, porque não lhes é dada a consciência – ou não temos condições de avaliar se eles a têm ou não; o espírito competitivo, que traz para o ambiente social o ambiente selvagem, onde a cadeia alimentar assegura o equilíbrio dos biomas.

Manaus, 19 de outubro de 2019

José da Silva Seráfico de Assis Carvalho



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