O pior está por vir

Sempre que algum profissional insensível à desigualdade se pronuncia, ele não consegue esconder as contradições que habitam sua cabeça. Ainda agora, testemunho complicado exercício neuronal, para explicar o inexplicável. Vem um ministro e anuncia investimentos públicos na área social, ao mesmo tempo em que proclama política de concessões e privatizações. Dos cofres públicos deverão sair 40 bilhões, enquanto a expectativa é a de que o setor privado entre com 350 bilhões de reais. E isso tudo é dito a título de justificar o que eles mesmos chamam de maior presença do Estado na economia. Em primeiro lugar, a matemática e as primeiras operações dela revelam que o volume dos investimentos é disparatado, desigual como tudo neste país. Pior, já se pode imaginar de onde sairão os recursos que se suporia virem dos cofres privados. Nada disso! Para quê então há o BNDES? E por que preservar as reservas cambiais, se os serviços públicos são todos deficitários em termos de instalações, equipamentos, recursos humanos etc.?

Depois, a política de concessão e privatização (da qual a outra é apenas espécie) reduz a presença do Estado na economia, ao invés de aumenta-la. Experiência é o que não nos falta, nesse particular aspecto das relações Estado-setor privado. Quem tenha olhos de ver o que tem sido feito no Brasil, com a transferência do controle de setores estratégicos para a sociedade ao setor privado, nem precisará considerar as sepulturas abertas pela covid-19. Esta apenas escancarou o resultado do desmonte do Estado e desmantelamento dos serviços públicos. Ou não caminhava celeremente o desmonte do Sistema Único de Saúde, experiência a que não eram destinados recursos suficientes? Nem o aparecimento e crescimento e gradativa sofisticação das unidades de saúde particulares, onde os ricos tratam de sua saúde e sorriem com a desgraça dos outros? Jamais se esqueça do congelamento de investimentos em saúde e educação por vinte anos, ainda no governo de Michel Temer. Inesquecível, também, como o SUS, com o pouco que ainda resta dele vem realizando trabalho meritório e merecedor, pelo menos, do respeito de todos.

Ora, para evitar isso foram criadas as agências reguladoras, dirão os – nem sei como dizer – inocentes, ingênuos, burros, desinformados, ignorantes por preferência ou desonestos. Devolvo e troco a pergunta: que têm feito essas agências, se não proteger os controladores dos serviços públicos privatizados ou concedidos? Ou os números relativos às burlas, fraudes, ilícitos de toda ordem não o comprovam?

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