O normal que vem

Em toda parte, cientistas, poetas, religiosos, filósofos buscam antecipar o que vêm chamando o novo normal. Mais a perplexidade que a curiosidade, leva os pensadores à tentativa de antecipar o que será nosso amanhã. Não se pode nem deve imaginar ser esta a primeira vez em que a sociedade humana enfrenta situação de tamanha complexidade, de incerteza também. Talvez nunca, porém, a Ciência e a dignidade humana tenham sido tão desdenhadas, enxovalhadas, agredidas e tornadas desprezíveis. Não me refiro apenas ao Brasil destes tempos tão sombrios, porque tenho os olhos abertos para o Mundo. Nem alimento a ilusão de estar vivendo realidade atribuível ao acaso. Na busca de explicação razoável, entretanto, cada dia parecemos mais distantes de encontra-la. De tal sorte os preconceitos, os dogmas, o fanatismo se impuseram em tamanho grau, que os simplórios, impulsionados pela ignorância, reduzem tudo a um campo de batalha. Nunca a morte pareceu ocupar lugar tão destacado, nos corações, nas mentes e nos projetos pessoais. Durante os conflitos armados, sempre a inteligência humana logrou construir os pretextos necessários à justificativa do sacrifício de tanta gente. Há a imposição de dogmas religiosos, de que as Cruzadas e o terrorismo de nossos dias dão transparentes exemplos. Não faltou oportunidade para o preconceito revelar-se – e, com ele, a mentira – eficaz ainda que passageira justificativa. A Segunda Grande Guerra é a marca histórica irrespondível. Nunca faltaram razões de ordem econômica a sustentar qualquer dessas manifestações de ódio, portanto desamor, ao ser humano. Hoje, todavia, o passado parece insinuar-se até nos menores gestos das autoridades constituídas. Pode-se, portanto, pelo menos suspeitar de que a ameaça de voltarmos à barbárie é o que pesa nas dúvida e perplexidade dos pensadores. Dentre estes, o filósofo italiano Franco Berardi. Autor do livro Crônicas da psicodeflação, o escritor de 71 anos observa o fenômeno do hikikomori, pessoas, inclusive jovens, que raramente saem de casa, mantendo-se em isolamento social até o resto de suas vidas. Ou seja, de alguma forma uma negativa á convicção de que homem nenhum é uma ilha. Esta última, expressão cunhada pelo pastor John Donne, faz séculos. Sem saber e sem autoridade necessárias ao cabal credenciamento para dizer algo sobre o assunto, cabe-me apenas ponderar com inabalável certeza a esperança de que o novo normal realmente seja novo, sem a desigualdade tão ao gosto dos que mandam. Pelo menos isso...

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