O líder e sua (des)orientação


É muito mais complexo o fenômeno da liderança, do que pensam muitos dos que se dedicam a estudá-lo. Os estudos pioneiros preocupavam-se sobretudo em tipificar as formas assumidas pelo que chamavam estilos. Talvez o mais conhecido deles é o que os vê em três tipos bem definidos – o estilo autoritário, o anárquico e o burocrático. Podemos atribuir ao sociólogo alemão Max Weber contribuição definitiva sobre essa última forma de a liderança manifestar-se. Perdiam peso no exercício dos líderes as variáveis personalísticas e temperamentais, compensadas ou constrangidas por outras, de ordem estrutural. Os sanguíneos ou os fleumáticos, assim, deveriam ter sua conduta à frente de grupos humanos relacionada à conhecida proposição de Ortega y Gasset: o homem e suas circunstâncias. Fórmula, portanto, capaz de derrubar crenças e dogmas, a revelar a complexidade da questão.

Os comportamentalistas trouxeram importantes subsídios à compreensão do tema, graças aos novos conhecimentos colhidos na produção, sobretudo, de psicólogos, sociólogos, cientistas políticos, economistas, antropólogos e teólogos. Sim, teólogos!

Se ainda não chegamos a uma conclusão cabal sobre o assunto, e se jamais isso será alcançado, a própria complexidade o explica. Mais que isso, a certeza das incertezas humanas. Nem mesmo aos robôs se pode atribuir a absoluta invariabilidade, tanto têm avançado os estudos sobre a robótica e a inteligência artificial. Em todo caso, enquanto as organizações não conseguem condenar ao ócio, ou à vagabundagem tipificada por FHC, todas as lideranças, surgirão novos líderes, enquanto velhos líderes permanecerão em atividade.

Ora, a inconstância é dos traços mais presentes na vida de todo indivíduo. Na sociedade, desde pelo menos oito décadas, atribui-se à mudança caráter permanente. Esta seria a única constante, neste mundo em movimento – a mudança. O que não significa a eliminação de tudo quanto vem do passado, nem do que tenta devolver-nos a ele.

Leio nos jornais que a resistência às recomendações das organizações sanitárias e governamentais, aqui e alhures, constitui ato de desobediência civil. Além disso, que o Presidente Jair Bolsonaro não é um líder merecedor deste título. Absurdo engano!

Que não seja líder da maioria dos brasileiros, a votação que o fez Presidente o atesta. Os votos recebidos por ele correspondem a menos de 40% dos eleitores inscritos. Isso, porém, não lhe retira a condição de liderança, eis que expressiva massa de brasileiros segue suas (des)orientações e suas palavras de ordem. O que basta para atribuir a condição de liderança a qualquer um. Sendo ele o Presidente da República, quem comete a desobediência somos nós, os que nos recusamos a reverenciar a morte e favorecer matança ainda maior pela covid-19.

Importa pouco, neste caso como em tantos outros, a direção (ou falta de) apontada pelo líder. Hitler levou a Alemanha e boa parte do Mundo à Segunda Guerra; Jim Jones provocou suicídio coletivo, em Johnestone, na Guyana, em 1978. Ambos contavam com seguidores, que, por mais fanáticos que fossem não tiravam do líder sua posição de liderança. Antes, atribuíam-na e fortaleciam.

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