O homem que não verei

Tenho recusado insistentemente participar de redes (anti) sociais. Não me têm faltado convites, muitos deles partidos de pessoas por quem nutro grande admiração e estima. Não deixo nenhuma delas sem resposta. Esta é sempre a mesma: a decisão, antiga, faz-me colocar meu endereço eletrônico à disposição de todos os que desejam manter-me como correspondente. Sei quanto perco, se alguns dos proponentes não concordam em correspondermo-nos pelo e-mail. Deixo de ler comentários equilibrados, sugestões valiosas, às vezes – suponho – conselhos e lições que muito me ajudariam a compreender o mundo e a gente que o habita. Paciência! É o preço pago para evitar os dissabores por que têm passado muitos dos usuários desse mecanismo capaz de infernizar a vida das pessoas. E de cumprir um destino que se pode imaginar talvez não ter em momento algum passado pela cabeça de seus inventores.

Esse aparente descaso dos inventores pode ser atribuído a muitos fatores, presumivelmente alheios à sua percepção. Senhores de sua ciência, reconhecidos como sábios nos respectivos campos de conhecimento em que atuam, pode lhes parecer pueril dar atenção ao mais frágil dos integrantes deste tão maltratado e sofrido mundo: o ser humano. Daí tornar-se frequente o sacrifício dos seus sonhos, suas prosaicas aspirações e interesses triviais que todos trazemos conosco.

Quem sabe os inventores sequer souberam da existência de um tal Charles Spencer Chaplin? Ou, tendo gargalhado diante das cenas que os filmes daquele gênio provocavam, nunca se preocuparam com os pensamentos dele e as palavras por ele proferidas. Se o fizessem, possivelmente encontrariam o que o criador de Carlitos disse, a respeito dos avanços tecnológicos: pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.

O filme Tempos Modernos, que considero um dos melhores trabalhos da arte mundial, até hoje não foi superado. Ao contrário, os problemas que ele põe em discussão permanecem, agravados, e cada dia mais hostis aos sentimentos valorizados por Chaplin.

As práticas a que se têm prestado as redes causam mais mal-estar que as primeiras máquinas que o ator e cineasta inglês criticou. As fake news, que estão na moda, não são exclusivas. Que o digam os pais de crianças e adolescentes, os pedagogos e os psicólogos e psiquiatras.

Estou certo de que, décadas à frente, o paciente sairá do consultório médico com a prescrição que será levada a um laboratório – de bioengenharia. Voltará lá, passados poucos dias, para receber seu kit: um fígado, pâncreas e vesícula, devidamente numerados, segundo as medidas do paciente. Dias após, no próprio consultório, o médico dará alta ao ciborgue.

Quando o cérebro for transplantado, ao novo ciborgue restará algo do que ele era? Os sentimentos referidos pelo gênio que criou o adorável vagabundo seriam os mesmos?

José Seráfico

Tenho recusado insistentemente participar de redes (anti) sociais. Não me têm faltado convites, muitos deles partidos de pessoas por quem nutro grande admiração e estima. Não deixo nenhuma delas sem resposta. Esta é sempre a mesma: a decisão, antiga, faz-me colocar meu endereço eletrônico à disposição de todos os que desejam manter-me como correspondente. Sei quanto perco, se alguns dos proponentes não concordam em correspondermo-nos pelo e-mail. Deixo de ler comentários equilibrados, sugestões valiosas, às vezes – suponho – conselhos e lições que muito me ajudariam a compreender o mundo e a gente que o habita. Paciência! É o preço pago para evitar os dissabores por que têm passado muitos dos usuários desse mecanismo capaz de infernizar a vida das pessoas. E de cumprir um destino que se pode imaginar talvez não ter em momento algum passado pela cabeça de seus inventores.

Esse aparente descaso dos inventores pode ser atribuído a muitos fatores, presumivelmente alheios à sua percepção. Senhores de sua ciência, reconhecidos como sábios nos respectivos campos de conhecimento em que atuam, pode lhes parecer pueril dar atenção ao mais frágil dos integrantes deste tão maltratado e sofrido mundo: o ser humano. Daí tornar-se frequente o sacrifício dos seus sonhos, suas prosaicas aspirações e interesses triviais que todos trazemos conosco.

Quem sabe os inventores sequer souberam da existência de um tal Charles Spencer Chaplin? Ou, tendo gargalhado diante das cenas que os filmes daquele gênio provocavam, nunca se preocuparam com os pensamentos dele e as palavras por ele proferidas. Se o fizessem, possivelmente encontrariam o que o criador de Carlitos disse, a respeito dos avanços tecnológicos: pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá.

O filme Tempos Modernos, que considero um dos melhores trabalhos da arte mundial, até hoje não foi superado. Ao contrário, os problemas que ele põe em discussão permanecem, agravados, e cada dia mais hostis aos sentimentos valorizados por Chaplin.

As práticas a que se têm prestado as redes causam mais mal-estar que as primeiras máquinas que o ator e cineasta inglês criticou. As fake news, que estão na moda, não são exclusivas. Que o digam os pais de crianças e adolescentes, os pedagogos e os psicólogos e psiquiatras.

Estou certo de que, décadas à frente, o paciente sairá do consultório médico com a prescrição que será levada a um laboratório – de bioengenharia. Voltará lá, passados poucos dias, para receber seu kit: um fígado, pâncreas e vesícula, devidamente numerados, segundo as medidas do paciente. Dias após, no próprio consultório, o médico dará alta ao ciborgue.

Quando o cérebro for transplantado, ao novo ciborgue restará algo do que ele era? Os sentimentos referidos pelo gênio que criou o adorável vagabundo seriam os mesmos?

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