O hoje e o amanhã políticos

Enquanto analistas credenciados e curiosos (como o autor deste texto se reconhece) tentam interpretar o resultado das eleições municipais encerradas no último domingo, lideranças políticas buscam ajustar-se às tendências do eleitorado. Pouca coisa está suficientemente clara, quanto ao futuro menos próximo. Mas todos sabem necessário entende-lo desde hoje, construído dia-a-dia como costuma ser todo futuro. Sabe-se por exemplo, às vezes só numericamente, que algumas siglas perderam espaço; outras não o lograram conquistar; umas terceiras ampliaram sua margem de manobra. Têm alguns analistas como certa a derrota simultânea de Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Esse é ponto convergente em várias análises, com a (no meu entendimento) equívoca conclusão de que há uma tendência ao que esses mesmos analistas chamam centro. Assim têm sido classificados certos políticos e partidos em geral tradicionalmente apanhados sobre o muro, à espera de que se abram os caminhos onde encontrarão a satisfação de seus interesses, não os dos que pretextam representar. O ganho, neste caso, traduz-se no poder conferido pela ocupação de algum posto influente na estrutura do Estado ou por negócios capazes de catapultar fortunas. Em qualquer hipótese, a supremacia do Estado patrimonialista a que a república e a democracia são avessas. Não se pense, porém, que mesmo lideranças dadas como lúcidas estão imunes a certos escorregões e vieses. Basta comparar seu discurso de hoje com o de ontem, para verificar presente em alguns deles a crença de quão curta é a memória de seus contemporâneos. Exemplo desses é o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes, um dos vitoriosos mais recentes. Sua pregação atual sugere a formação de duas frentes, para a disputa cuja campanha foi iniciada em 1 de janeiro de 2019, quando o Presidente Bolsonaro assumiu o governo. Segundo Ciro, só uma aliança entre o que ele chama centro-esquerda e centro-direita impediria a renovação do mandato presidencial. Em geral lúcido, o ex-governador cearense parece ter-se perturbado com a vitória eleitoral. A proposta dele aparenta firme crença na possibilidade de água e azeite se misturarem facilmente. Ou generaliza eventual e forte amizade entre cão e gato. Nem considero a contradição conceitual em que ele incide, fingindo ignorar a falta de identidade dos que se dizem de centro. Logo ele, cuja vida política se tem feito em terra de muito vento. Não precisa ser um anemômetro, para adivinhar a direção dos ventos. Pois a proposta de Ciro negligencia esse aspecto. Outros, como Jaques Wagner, têm os pés mais no chão. Pelo menos, é isso o que se pode concluir, depois da entrevista concedida pelo senador baiano ao jornalista Guilherme Amado. Embora se tenha atribuído ao ex-Secretário do falecido Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES a disposição de concorrer à Presidência, em 2022, isso não foi dito por ele mesmo, na entrevista. Ao contrário, Jaques Wagner lembrou a necessidade de renovação no Partido dos Trabalhadores, se há o propósito de reconquistar o espaço que a última eleição municipal mostrou perdido. Mais interpretações virão, até a hora de serem colocados em campo os times que decidirão o campeonato. Os que sobreviverem (politicamente) até lá, desde agora sabem difícil a caminhada. Em especial os que desejam fazer a mentira passar por verdade e põem as fichas todas na falta de memória coletiva.

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