O governo da distopia

Marcelo Seráfico

Governar exige o atendimento de três condições. Não importa qual seja a orientação ideológica de quem exerça o poder. A primeira e primordial delas é a clareza de projeto, isto é, o compromisso com ideias e ideais que moverão o governante em suas escolhas, em suas decisões. Tal clareza situa e conduz o governante nas lutas travadas com os demais projetos, ideias e ideais constituintes do universo político. Sem clareza de projeto, sem ideias norteadoras da ação e sem um lugar ao qual elas devem conduzir, governar se torna mera atividade burocrática, quando não, gerencial.

Governar, então, exige utopia. Mas um tipo de utopia distinta daquela que agita as paixões e convicções revolucionárias. Se nessas circunstâncias as rupturas abruptas e por vezes violentas se impõem, a utopia motora de governos regidos por sistemas jurídicos e políticos legítimos envolve competência jurídica e política para lidar com os desafios decorrentes da própria utopia posta em marcha. Desafios que vão da formulação de leis e projetos, passando pelo enfrentamento e superação dos conflitos por eles suscitados e chegando à sua adequada implementação.

Governar, assim, exige militância qualificada para lidar com os sistemas jurídicos e políticos. Mas esses sistemas existem como meios de disciplinar, controlar e organizar conflitos. Daí que a competência técnica para lidar com eles esteja sempre intimamente relacionada ao sentido da militância governamental. Dito de outro modo, governar, nesse sentido, significa mobilizar recursos jurídicos e políticos adequados à utopia da qual se nutrem as posições e ações do governante. Uma utopia que, emblematizada por ele, representa, de fato, horizontes de realização histórica das camadas, grupos e classes que, num regime democrático, o levaram ao poder.

Governar, portanto, exige apoio popular, um apoio que, a depender da utopia, pode ser mais ou menos difícil de manter.

Utopia, qualificação e apoio popular são condições sine qua non para governar. É cercando-se dessas três condições que um governante pode aumentar a probabilidade de converter vontade em ato e ato em passo rumo à invenção do lugar que quer que exista. Sem elas, a vontade do governante tende a redundar em frustração.

O governo de Jair Bolsonaro, um ano e meio depois de tomar posse, patina nos três critérios. A natureza reacionária sua utopia o leva a afastar de si todo e qualquer político e técnico qualificado ou comprometido com escrúpulos republicanos, além de, progressivamente, fazê-lo colidir com muitos dos eleitores que passam a compreender o sentido socialmente distópico do projeto no qual depositaram voto.

Os rumos da frustração popular, contudo, são distintos da frustração dos poderosos. O povo mantém seu compromisso com a utopia frustrada pelo governante. Por isso, reorienta suas escolhas em relação a quem pode representá-lo. Os governantes tendem a afirmar compromissos com sua própria sobrevivência política.

Técnica e politicamente frágil, o governo de Jair Bolsonaro vê-se cada dia mais distante do apoio que o levou a, sem participar de um debate sequer, ser eleito. Sua distopia reacionária o distancia dos eleitores.

Órfão de apoio popular, de quadros técnica e politicamente qualificados, Bolsonaro entrega-se abertamente ao fisiologismo do Centrão, à tutela militar e ao desvario olavista como forma de permanecer no cargo e manter o discurso eleitoral. Numa equação de difícil resolução, a matemática política do governo Bolsonaro está dominada pela subtração de conquistas e pela multiplicação de perdas para a maioria dos cidadãos.

Cabe indagar: a distopia reacionária que o levou ao poder ainda tem abrigo na vontade popular?

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