O exílio domiciliar

Quantos os de minha geração e das que vieram depois imaginaram um dia ter que exilar-se em sua própria casa? Sempre saudada como o sacrossanto refúgio do lar, até aqui sentíamo-nos seguros no espaço mais reservado às famílias, fosse a mansão dos privilegiados, fosse a casinha de sapê tão festejada no cancioneiro nacional. Mesmo as desavenças pessoais, às vezes até o desamor e a hostilidade contraditando o conceito ingênua e oralmente proferido, melhor estar dentro das quatro paredes que exposto aos perigos da rua. Viver sempre é, foi e será um risco. O maior de todos. Já o disse Guimarães Rosa, pela boca de Riobaldo. Há os que o ouviram.

Hoje, forçados pelas circunstâncias, não pela vontade, não há alternativa. Não que todos os riscos se desfaçam no ar, por tão sólidos que são. Mas pela invisibilidade do inimigo. Tem-se tênue ideia do que ele seja, menos ainda do que pode causar. De bem e de mal, porque assim acontece com todas as coisas. Enquanto outras eram as guerras urdidas pelos arquitetos e guardiões das desigualdade, o vírus chegou e logo se alastrou pelo mundo. Não um mundo qualquer, como o registra a literatura. Mas o mundo por nós mesmos construído. E, admiradores e entusiastas da globalização, sequer nos demos conta dos riscos a que dá força o mesmo processo que faz enriquecerem cada dia mais os mais ricos e empobrecer mais os que nada têm. Fazendo-os miseráveis, aos quais só assiste um direito: o de morrer à míngua. Qual antecipatório do bíblico apocalipse, chega o horror do coronavírus, este que a pressa abrevia para CD19. A guerra que mataria 30 mil seres humanos (número que não é meu) matará não se sabe quantos, aqui e mundo afora. Muitas têm sido as manifestações de solidariedade, multiplicam-se exemplos de dedicação ao combate ao vírus. Não em número e força suficientes para debelar o egoísmo e a ganância, frequentemente disfarçadas de generosidade. Até porque não se trata de assunto da esfera do indivíduo, mas do coletivo deles. Constatam-se, como trágica ilustração, contradições impossíveis de escapar à percepção dos que não se deixam idiotizar ou imbecilizar pela aparência dos fatos. O patrão que manda o empregado para casa é o mesmo que reivindica do Estado a ainda maior redução dos direitos que até há pouco o subordinado detinha. A autoridade pública que pretexta defender os mais pobres é a mesma que trama a redução dos salários pagos aos funcionários. A concessão de favores aos maiores empregadores segue-se da penalização e da precarização dos que produzem a riqueza nacional.

Pode não ser o Apocalipse, com toda a fealdade descrita por João. Mas, podendo ser a hora de tomar o desvio que nos afastará do inferno, pode também apenas ser uma parada na estrada que levará a uma vida ainda mais infernal. O desvio parece-me mais promissor - e digno da suspeita de que somos, realmente, seres inteligentes. E dignos, também.

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