O eu e o nós


Adolescente, li que o brasileiro só é solidário no câncer. Outros, conscientes da exposição a que a sociedade administrada por governos autoritários está sujeita, dizem que as esquerdas só se unem na prisão. Mais recentes, ao câncer e à prisão acrescentaram-se outras ocorrências capazes de despertar nas pessoas o sentimento sem o qual sucumbe qualquer - mais bem intencionada o seja – tentativa de melhorar o ambiente social. As tragédias de Brumadinho e Mariana, o deslizamento provocado pelos temporais em várias cidades brasileiras e outros acontecimentos igualmente trágicos ensejaram manifestações que justificam novas esperanças. É possível, sim, fazer melhor o mundo!

Agora, que a globalização revela a fragilidade da espécie humana e o coronavírus se espalha por todos os continentes, mais que oportuna impõe-se a reflexão séria e profunda sobre as vantagens de o egoísmo ceder espaço à solidariedade. Fosse à morte dada a atenção adequada, todos a veríamos menos como o fenômeno a que por enquanto não se pode fugir. É necessário, portanto, vê-la como razão suficiente para buscar a compreensão do seu significado e dar à vida o sentido que os outros animais estão longe de alcançar. Quem sabe um dia...

Vida e morte, fenômenos naturais indissociáveis, são apenas os extremos de uma trajetória, a um só tempo individual e coletiva. Ambas afetam cada um dos animais ditos inteligentes, do mais rico ao mais pobre. Pára aí, porém, a igualdade que deveria ser a base da vida em sociedade. Não houvesse outra razão, porque ao homem, se é dada a inteligência, também o é o livre arbítrio. É ele, multiplicado em bilhões de exemplares distribuídos por todo o Planeta, quem constrói, desenvolve e mantém a sociedade. Tais objetivos não dispensam – antes, exigem – a superação do egoísmo. Isso é o que o coronavírus nos diz. Se as lágrimas derramadas agora irrigarem as mentes, teremos chance de nos fazermos realmente humanos. O eu não existe sem o nós.

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