O ESTADO COMO ASSASSINO DE DUAS VIDAS

Lúcio Carril*


A violência em Paraisópolis é emblemática em tempos de violência institucionalizada.

Vimos o estado espancar e armar as condições para as mortes acontecerem. Mas também vimos o policial sádico bater e sorrir, como num filme trash de tortura medieval.

No caso do estado agressor e assassino, entendemos seu caráter classista, sua formação repressora e segregadora das populações pobres. Temos que combater e denunciar sua ação.

Já o policial que violenta e se regozija com seu ato trata-se de um caso mais complexo, que envolve uma análise multidisciplinar.

O agressor é também pobre, morador de morro ou favela, jovem ou de meia idade, negro ou pardo. Mesmo assim espanca sua imagem refletida, como se o fizesse por ódio contra sua própria condição social. É um homem do povo batendo num jovem do povo que poderia ser ele mesmo, seu filho ou irmão. Há aqui um produto do estado que já passou por um processo de desumanização, tornando-se tão conceitual como a própria instituição que o coisificou.

Com o aval de um estado agressor, o policial mata sua alma transfigurada no seu semelhante. Ele já não existe mais como ser. Ele é o estado, uma coisa sem vida.

O processo de dominação não busca somente a execução sumária do outro, mas a morte do indivíduo que nele está inserido como seu agente. Os dois morrem: um perde a vida e o outro vira um zumbi a contaminar a sociedade.


* Lúcio Carril é sociólogo, pós graduado em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

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