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O CRIME DA VALE NO VALE DO CRIME

José Alcimar de Oliveira*


01. 25 de janeiro de 2022. Três anos do maior crime socioambiental da história do Brasil, país que se converteu num vale do crime. Na oração da Salve Regina clama-se a Deus desde um lacrimarum valle. Ou lamarum valle, num latim ao arrepio da gramática. Na cartografia da Vale vale o lucro de uns à custa de vidas muitas convertidas em lama.

02. Na manhã do dia 25 de janeiro de 2019 rompeu-se a barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais. Em menos de cinco minutos cerca de 300 vidas, na maioria trabalhadores e trabalhadoras da mega e amarga empresa Vale do Rio Doce, foram soterradas pela lama tóxica dos rejeitos de mineração.

03. Nos idos do século de XIX o Mouro de Trier já apontava, desde outro vale, que é da natureza do sistema universal de mercantilização da vida do ser natural e do ser social constituir-se como usina predatória das duas fontes de toda a riqueza possível: a terra e o homem. Florestas, terras, rios e homens, nada escapa à predatória usinagem da riqueza.

04. Há tempos, já não me recordo quando, no Brasil sob o governo do golpe empresarial-militar de 1964, o grande Millôr Fernandes escrevera: como vale o verde no verde vale. Sob a ordem do vale do capital, que controla a Vale e submete com força de milícia o Estado e seus aparatos, a que instituição poderão recorrer as vítimas de Brumadinho?


05. Vivos, e mortos inclusive, para recorrer a Walter Benjamin, nunca estarão em segurança enquanto a justiça e a segurança estiverem subordinadas ao poder do capital. Até quando teremos que suportar a omissão do Estado brasileiro? Até quando prevalecerá o silêncio diante de tantos crimes cometidos sob a luz do dia?

06. Até quando o país viverá imerso em tempos sombrios, de ostensiva destruição da memória, de criminosa falsificação da história, de desdém pela verdade e de financiamento miliciano da mentira? Como recuperar o poder da verdade se o próprio regime da verdade só obedece à verdade do poder?

07. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, proclamou o Nazareno. Seguidores do Caminho, assim se apresentavam seus primeiros seguidores. Se até em Deus – o Deus do Nazareno – o Caminho se antecipa à Verdade, que valor teria a Verdade se em lugar da Vida tomasse ela o Caminho da morte? Vítimas da Vale da morte, Presentes!

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*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical – e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Aos 25 de janeiro do ano da virada de 2022 e aos três anos do crime socioambiental de Brumadinho.

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