O CAPITÃO-DO-MATO

*Lúcio Carril


Essa figura emblemática e enojada não foi uma simples personagem institucionalizada na América Portuguesa do século XVII. O capitão-do-mato era parte da estrutura escravocrata, cuja função ia da perseguição e captura de escravos fugidos à destruição de quilombos.


O que me leva a introduzir este texto fazendo menção a um sujeito do sistema escravista? Encontrei figuras análogas em nossos dias. Não se tratam apenas de homens e mulheres negros, mas de outras raças e gêneros.


Lembrei de Althusser, em seu trabalho: Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado. Sem qualquer razão para abstrair elementos além do pensamento do autor, comecei a refletir sobre os “agentes” que atuam em colaboração com o seu opressor.


Assim como o capitão-do-mato, que não servia a seu senhor, mas a um sistema de opressão, temos hoje a manifestação explícita de negros apoiando racistas, de homossexuais apoiando homofóbicos, de mulheres apoiando misóginos. Não se trata, também, de apoio e colaboração com um governo ou com seu carrasco, mas de servidão a uma estrutura social e econômica opressiva. Encontramos nesta mesma linha “agentes ideológicos” atuando dentro das universidades, escolas, hospitais, forças aramadas, judiciário, igrejas, etc.


Conheço a capacidade de esmagamento da ideologia dominante, mas existem agentes que colaboram em plena consciência e consentimento: são os capitães-do-mato dos nossos tempos.


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