O buraco é mais em cima

Articulam-se deputados federais e senadores do Amazonas, para salvar a zona franca. Repetem a cena dando sempre a impressão de surpresa com os rumos da economia - a nossa e a predominante no mundo. Desta, pouco mostram perceber; da outra, revelam menor grau de ignorância. Só que a veem com os olhos de quem é insensível à desigualdade social e econômica, ela também produto da forma como se processa a acumulação de capital. Não fosse assim, todos os amazonenses se incorporariam aos esforços (e não só aos de última hora, quando o barco ameaça naufragar) das lideranças políticas e empresariais. Não, é claro, perdendo de vista os interesses que movem o Ministro Paulo Guedes e o governo a que serve. E a que interesses serve este.

De tudo quanto tenho lido, sai-me a impressão de que já o li antes. Argumentos (chamemo-los assim, para não parecer caturrice) nem sempre sobejamente comprovados voltam a enriquecer documentos oficiais: a arrecadação da zona engorda os cofres federais, a indústria de Manaus preserva a floresta, o número de empregos cresceu. Não se diz, porém, quanto dos lucros auferidos foram aplicados no Amazonas, seja no consumo ou no investimento. Ninguém, que eu perceba, associa o pagamento de salários dignos como motor da economia. Isso, do ponto de vista do consumo das famílias. Do ponto de vista do investimento, ninguém se preocupa em saber quanto rendeu em investimentos públicos no Amazonas. Na saúde e na educação, sobretudo.

Nada que não se pudesse prever, antes da manifestação de 57 milhões de brasileiros.

É o caso de dizer: quem pariu Matheus, que o embale. Mas não se descarte a concessão de título de cidadão ao Ministro Paulo Guedes. A História autoriza-me dizê-lo.


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