O baixo clero e os baixos

O Presidente Jair Bolsonaro dá lições sobre o que é a nova política. Nem louco, nem equivocado, pouco a pouco vai tentando desmoralizar as instituições democráticas e terceirizar a crise imposta pela covid-19. Não há um só dia em que evite acirrar os ânimos e levar à sociedade ao desassossego. Nada, porém, que possamos considerar surpreendente. Não apontava em outra direção sua conduta, quando ainda candidato. A rigor, antes mesmo de apresentar-se como postulante à Presidência ou iniciada a campanha eleitoral. Dos mais obscuros parlamentares, durante quase trinta anos pertenceu àquela porção de deputados cuja presença no Congresso só era notada por alguma conduta no mínimo extravagante. Alguns deles deixaram marcada sua passagem ou presença ali não propriamente por atos minimamente abonadores. Como Wladimir Costa, Severino Cavalcante,Genebaldo Correia, Cid Carvalho, José Alves de Almeida, Manoel Moreira e outros, uns participantes do chamado escândalo dos anões do orçamento, outros até condenados pela justiça. Quanto aos anões, entrevista não tão antiga do economista José Carlos Alves dos Santos lamenta nenhum dos que ele denunciou estar preso pela ladroagem por ele esclarecida. Outros receberam a condenação das urnas. O que não quer dizer que não possam voltar à Casa. A proeza maior do ex-capitão, quando investido do mandato legislativo, foi tecer loas à tortura e elevar à condição de herói nacional o mais afamado torturador brasileiro. Depois... bem, depois não é preciso dizer mais, porque à vista de todos. Enquanto as famílias choram a morte de seus entes queridos,em grande medida provocada pelo desmantelamento dos serviços públicos em que tanto se empenha o governo federal, o Presidente se dedica a resgatar a base política que pouco a pouco o abandona. Esperto, porque a esperteza é necessária aos destituídos de inteligência, faz-se cercar do maior número possível de generais. Pensa, com isso, assegurar o mandato, como se a Constituição correspondesse àquilo que suas parcas luzes elaboram.

Não têm sido poucas as vezes em que o Estado democrático de Direito sofre seus achincalhes. Nem é infrequente a manifestação dos generais instalados no governo, desautorizando suas bravatas tristes bravatas! Impossível, porém, imaginar coisa diferente, tanto o risco de as forças armadas se comprometerem com projeto autoritário absolutamente infenso à Constituição. Nenhum cidadão brasileiro minimamente interessado na paz social, na redução da desigualdade e na manutenção do Estado de Direito e no aprofundamento da democracia advoga a tutela do poder civil pela caserna. Também valoriza a boa execução, pelas forças armadas nacionais, do que dispõe a Carta Magna. Isso é tudo. Na própria Constituição de 1988 estão os instrumentos necessários à correção de rumos. Lançar mão deles, neste momento, é mais que urgente. O País tem experimentado, ao longo das últimas décadas, desde soluções extremas (como o suicídio de Getúlio Vargas), até o impeachment, os remédios que a democracia prescreve, para tolher os desejos de conspurcação da vida política e da tranquilidade nacionais.

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