O ar que nos falta


Conseguimos finalmente federalizar nosso circo. Levamos ao cerrado o cenário em cujo picadeiro mais de treze mil vidas já se perderam. É nossa contribuição para as quinhentas mil mortes espalhadas pelo Brasil, talvez o alcance de um objetivo governamental, nem por esses números tido por totalmente colimado. O depoimento prestado pelo ex-Secretário de Estado da Saúde do Amazonas (o depoente não era o primeiro) à CPI da covid-19, pode até não ter acrescentado muito ao que já se sabia. Mais importante, porém, é o fato de ter confirmado a responsabilidade do governo, o federal tanto quanto o estadual, pela perda de milhares de vidas. No Amazonas, da mesma forma que no Brasil. O maior Estado do País, não mais que um microcosmo amostral de nosso mapa nacional. A hierarquia de que os quartéis se vêm desvencilhando espalha-se por outras áreas e atividades oficiais, cada unidade federativa sofrendo orientação que se tem provado genocida. As contradições registradas no depoimento de muitos dos profissionais levados à CPI têm o mérito de expor cristalinamente o esforço por transferir responsabilidades e blindar os principais envolvidos. Não se poderia esperar coisa diferente, haja a coincidência de ideário, propósitos, práticas e apetites dos protagonistas associados. Não devemos descartar o pavimento em que se mantém em pé o órgão de investigação, onde o solo é forrado de intenções políticas umas, eleitoreiras tantas outras, e interesses das mais variadas – sabe-se lá quais – inspirações. Esse, porém, é vício arraigado, que uma ou dez CPIs não se pense capazes de erradicar. De qualquer maneira, o que chega aos ouvidos dos inquisidores nem sempre equilibrados põe a nu espetáculo trágico que nem os mais celebrados autores da Antiguidade Grega seriam capazes de construir. A mentira tem mostrado e mostrado e mostrado em repetição asquerosa sua face maldita, mesmo se seus praticantes não conseguem esconder a realidade que tanto os preocupa. Vai-se consolidando, assim, na percepção e no juízo dos que ainda o têm, não se tratar de acidente ou mero equívoco, nem de simples ignorância a causa da morte de tantos pais, mães, avôs e avós, parentes, amigos de cada um. A convergência de ações, o uso desavergonhado de omissões, a aparente negligência e a ostensiva agressividade com que o fenômeno se manifesta não permitem dúvida: a morte é o valor que inspira, o ódio a bússola dirigida a um objetivo. Que, rejeitado por uma sociedade ameaçada, multiplica o número de vítimas, ao mesmo tempo em que corrói a esperança e naturaliza o que não responde senão ao propósito de alguns, mesmo se constituem a minoria. Neste pedaço de Brasil, um dia, equivocadamente que seja, chamado o pulmão do Mundo, não foram poucos os que morreram porque lhes faltou oxigênio. Detentora da maior floresta tropical do Planeta, a Amazônia sofreu a humilhação de ter propagado em seu território o uso generalizado de mezinhas desautorizadas pela Ciência. Tudo, com a influente participação de autoridades constituídas à força do voto democrático e pagas com o dinheiro suado dos contribuintes. Não demora, e isto já foi anunciado, percorrerão as ruas de Manaus, como ocorrido em outras cidades brasileiras, grupos de (a)celeradas motocicletas, espalhando o vírus e buscando razões para nos chamar de parvos. Sem o direito, sequer, de respirar o oxigênio que a natureza nos oferece.


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