O amanhã

Otimista por convicção, encanecido pelo tempo, cedo entendi as vantagens de ver o mundo e seus habitantes capazes de experimentar bela e frutuosa trajetória. Para mim também, e não somente. Porque me entreguei à compreensão do universo circundante, tenho recorrido desde cedo às páginas cheias de letras imprestáveis, como têm dito e repetido os ignorantes por opção. Lá tenho buscado a informação, a análise e a explicação do que meus olhos veem; as narinas captam; dos bons ou maus sons que percorrem o canal auditivo; do que a sensibilidade do paladar e da pele captam. Qual máquina cujo funcionamento não se interrompe – até o átimo em que o momento chegará -, o cérebro trata de iluminar os meus caminhos. Por isso, acumulo como todos, emoções, frustrações, recompensas, alegrias, tristezas, decepções – esperança, também. Exatamente como ocorre com todas as pessoas, salvo as quais basta pôr-se de pé e caminhar sobre as duas patas traseiras.

É o meu cérebro, portanto, fornecedor das lentes e dos molhos necessários ao entendimento do mundo e das coisas. Das primeiras procede a cor posta no futuro, nada menos que a construção a que se entregam todos, desejem-no ou não.

O molho é feito na mistura dos ingredientes contidos no mundo à minha volta, mais a balbúrdia nos neurônios bem guardadas. Das lições que guardo comigo e tendo aproveitar na vida comum, sei da impossibilidade de uma sociedade ser melhor que seus feitores. Os há bons, os há maus. Nenhuma, porém, é diferente do jogo de vontades de seus inventores. A vontade prevalecente varia, variadas são as formas de as pessoas relacionarem-se. Daí a ocorrência de modelos diversos de institucionalidades. Não agrada ao autoritarismo o que agrada à democracia. A democracia não prospera, onde prevalece o autoritarismo. Há, no entanto, mútua cumplicidade entre governantes e governados, num e noutro sistema. Onde chega a democracia, porém, uns sãos os modos de administrar as controvérsias – estas também elemento essencial à configuração democrática. Diferentes, antagônicos a elas são os modos, quando se trata do autoritarismo. Neste caso, não será jamais a força das ideias e das propostas, a substância dos sonhos e projetos que solverá as disputas. A História nos tem mostrado: é a força das armas, inspiradora de coragem e vigor aos que não os têm a resposta às dificuldades. Onde falta coragem, onde haja carência de argumentos, lá está o fogo pronto a acender as fogueiras em que livros serão queimados, esperanças serão incineradas, vida será consumida.

Por isso - e não é tudo – afasto-me da estrada por onde passaram meus olhos esperançosos. Ah, maldita História fazendo-me lembrar dores antigas! O covid-19 terá se chamado gripe espanhola, Segunda Guerra, crise de 29, derrubada das torres gêmeas – quantos nomes terá tido? O que resultou delas – uma sociedade mais fraterna? Um homem que mereça o certificado de humanidade? O diploma da generosidade? ...?

Todos sabemos não ter sido assim. Agora, quando se abrem algumas algibeiras, enquanto se preparam as malas condutoras das riquezas da Terra, maior que as migalhas oferecidas é a ingenuidade cultivada.

Sinto, porém, não ser chegada ainda a vez da última que morre!...

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O ar que nos falta

Conseguimos finalmente federalizar nosso circo. Levamos ao cerrado o cenário em cujo picadeiro mais de treze mil vidas já se perderam. É nossa contribuição para as quinhentas mil mortes espalhadas pel

Pergunta incabível

O desrespeito às normas estabelecidas pelos poderes competentes, tanto quanto a recusa em executar decisões dos tribunais só agora começam a incomodar certos setores da sociedade. Até as recentes agre

Imunidade de rebanho, impunidade do gado

Com a vacina e o esforço gigantesco dos profissionais de saúde brasileiros, ainda não se chegou à cinco centésima mil morte pela covid-19. O esforço governamental por evitar a imunização em massa e no