Nova carta em elaboração


Dissipam-se com a mesma rapidez com que surgiram as apreensões dos agentes econômicos em relação à possibilidade de Lula disputar a Presidência, em 2022. Refiro-me à reação dos bilionários e magnatas portadores de RG e inscritos no CPF e CNPJ, espertamente travestidos na divindade chamada mercado. Passado o impacto do discurso do ex-Presidente libertado, por muitos reconhecido digno de um estadista, já foi possível aos que sempre ganharam fazerem as contas que sustentam suas decisões. Do ponto de vista a que os leva a racionalidade do capital, Luís Inácio Lula Silva é, para eles, incomparavelmente melhor que o ex-militar excluído das forças. Pelo menos, com Lula alcançaram em 8 anos lucros jamais experimentados, concomitantemente à segurança que alegam indispensável ao desenvolvimento de seus negócios. Basta analisar o crescimento da desigualdade de que nos tornamos campeões mundiais com o grau de acumulação registrado. Para eles, os benefícios das classes mais pobres deixaram intocados seus estratosféricos ganhos, com uma vantagem adicional: asseguraram expressivo aumento no consumo, ainda que à custa de restrições ao pleno exercício da cidadania pelos novos consumidores. À desmobilização de amplos setores da massa operária juntou-se o fortalecimento do aparelho do Estado, especificamente os setores ligados ao mundo dos negócios. Isso explica a expansão do ensino técnico, a criação de dezenas de universidades públicas e agressiva política exterior de exportação de bens e serviços. Este último caso, visto pelos ignorantes em relações exteriores como orientado por preferência ideológica. Ademais, em nenhum momento o governo de Lula tentou tolher a ação dos órgãos de controle e fiscalização, com a blindagem de pessoas de seu círculo mais próximo. Até agora, não houve um só depoimento de membros da Polícia Federal, Agência Brasileira de Informações, Ministério Público Federal, IBAMA, Advocacia Geral da União, Corregedoria Geral da União ou órgãos de igual índole, indicando a interferência do Planalto em suas atividades. Ao contrário, todas essas instituições foram prestigiadas e fortalecidas. Isso não quer dizer terem sido eliminadas certas práticas criminosas, na Petrobrás ou em outras dependências diretas ou indiretas da administração pública federal. Nem que as investigações sobre tais suspeitas fiquem isentas de apuração. Não, seguramente, de acordo com os padrões, orientações e práticas tão delinquentes quanto as que pretextaram os condutores da Operação Lava Jato. Sendo que esta já tem comprovados os crimes cometidos por seus responsáveis. Resta mencionar, ainda, dois aspectos relacionados à repercussão do discurso de Lula e sua reinserção no processo eleitoral. O primeiro deles diz respeito à provável reedição da Carta ao Povo Brasileiro, passaporte firmado pelo vértice da pirâmide econômica para a subida da rampa do Planalto. O outro aspecto, que nem precisa ocupar mais que as entrelinhas da nova-velha carta, refere-se à renúncia definitiva por opção distante do mercado. Isso, os governos de Dilma e Lula deixaram suficientemente evidenciado. Foi-se o tempo em que o socialismo se apresentava como solução. Hoje, aos governos capturados pelos interesses do capital basta preocupar-se com mais uma refeição por dia na casa de cada trabalhador. E manter a roda da economia a pleno vapor. Sendo assim, por que preocupar-se com o resto? Nunca será demais lembrar que o capital não tem pátria, nem alma, nem coração.

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