Notáveis e notórios


Analistas políticos e jornalistas dos grandes media cogitam de entendimentos tecidos por influentes (?) auxiliares do Presidente Bolsonaro, para ao menos reduzir os estragos que a prisão de Fabrício Queiroz já produziu. Todos sabem ter sido exposta apenas a ponta de iceberg cuja profundidade ninguém ousaria dizer quando – e se – um dia será alcançada totalmente. Por enquanto, divulga-se ainda não ter chegado nada disso ao conhecimento do maior interessado, o próprio Jair Bolsonaro. As negociações e confabulações estariam restritas a auxiliares de alguma forma preocupados com as consequências imaginadas, se as investigações sobre as façanhas de Queiroz prosperarem. Informa-se que a preocupação maior e o desejo de logo vencer essa dura e desvantajosa etapa vem dos generais mais próximos do Planalto. No centro das tratativas estaria a reconstituição do Ministério, à moda do que aconteceu com Fernando Collor de Mello. No ano de 1992, quando a corda começava a apertar o pescoço do parceiro de Paulo César Farias (mas não só dele), o primeiro Presidente eleito pelo voto direto pós-ditadura apenas subia os degraus do patíbulo. Várias personalidades substituíram auxiliares diretos do Presidente Collor, manobra desesperada e mais tarde revelada infrutífera. Não bastaram nomes como o do ex-Presidente da OAB, o amazonense José Bernardo Cabral, antes nomeado Ministro da Justiça, e os que vieram depois, para salvar o mandato de Collor. A carga era pesada demais para manter o barco flutuando. A renúncia foi a defensa que evitou o afundamento total e acelerado. Já não se ouvia o espocar de fogos de artifício que ressoou pelo País, quando o primeiro bilhão de reais foi atingido.

A situação de Bolsonaro, porém, parece mais complicada que a do ex-caçador de marajás. A rigor, a trajetória turística pelos artigos da legislação penal do primeiro parece aperitivo, se comparada à do atual Presidente. Como se pudéssemos comparar um fim de semana em Búzios com excursão de 30 dias nos países europeus. Nem se assemelham os guias e acompanhantes dos dois.

É exatamente o risco de verem-se confundidos, levando as corporações a que pertencem à presunção inevitável do vínculo indesejado, que motivaria o grupo fardado. Sobretudo em razão do dever de tolerar, em nome de obediência indevida, sentarem-se os generais ao lado de figuras como as que o Presidente recrutou no Centrão. Já lhes terá bastado a proximidade com gente como Paulo Guedes, Ricardo Salles, Abraham Weintraub, Ônix Lorenzoni, além de outros cuja folha corrida quase não se conhece.

O grande risco da empreitada que os observadores dizem entreter os preocupados auxiliares do Presidente consiste na probabilidade de conformação a uma equipe constituída de notórios, não de notáveis. Só boas árvores dão bons frutos.

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