Nossos crucificados


O Brasil, uma das dez economias mais fortes do Planeta, enfrenta crise bem pior do que a enfrentam outras nações. Muitas delas, economicamente menores, culturalmente menos ricas, naturalmente em desvantagem. A pandemia que nos aflige é a mesma que atinge outros países, em todos os continentes. Não serão, porém, as mesmas as consequências, comparando-nos com os outros. E não se diga ser maior a complexidade do problema aqui, em razão do tamanho de nosso território, da extraordinária diversidade que ele ostenta e do ânimo da nossa população.

Insisto em que a grandeza territorial de que somos dotados, longe de ser um problema, multiplica as probabilidades de superá-los. Todos. Possivelmente, nossos 8,5 milhões de km2 asseguram repertório de condições raramente encontrado em outras paragens. A ocorrência simultânea de estações climáticas diferentes, a convivência de ecossistemas diversos, a riqueza de nossas bacias hidrográficas – tudo isso e muito mais concorre para facilitar, não tornar mais difícil o equacionamento e resolução dos nossos mais importantes problemas. Não se pode dizer do povo brasileiro mais que é portador de humor propício ao enfrentamento vantajoso de todo tipo de dificuldade. Basta verificar o entusiasmo com que aceita e aplaude ações que, previsivelmente, acabam por apená-lo, não o beneficiar. Há como que certa indiferença, esta sim, nota negativa no cotejo entre nossa disposição para cumprir o destino esperado e os resultados até agora alcançados.

O que poderíamos chamar ignorância política e alienação, todavia, não deve desanimar os que creem no País. Devemos, isto sim, denunciar as causas da indiferença, da acomodação e do escasso sentimento de cidadania reinante. Só assim será possível enxergar as condições favoráveis e anular as tentativas de condenar-nos a papel secundário no cenário internacional. Mesmo se temos a infelicidade de experimentar períodos como o que agora aflige a maioria da população, nem por isso nos deveremos submeter aos preconceitos e à perversidade de políticas marcadas pela necrofilia.

É da índole do brasileiro o gosto pela festa, menos que pelas cerimônias da morte. Também a alegria é das características mais marcantes da maioria dos brasileiros, fadados a superar tudo quanto o ódio determina, em proveito do amor ao próximo e da solidariedade.

Nem se tomem esses esforços necropolíticos como acidentais. Eles são cuidadosamente gestados, ainda que nem sempre claramente expressos. Afinal, não se anuncia o mal que se há de fazer, sobretudo quando se proclamam e prometem benefícios raramente concedidos.

Assim, é forçoso reconhecer: a pandemia, entre nós, instalou-se em momento de crescente aprofundamento da desigualdade. Num certo sentido, já se sabe que a covid-19 será mais uma vez pretexto para ampliar a exploração ainda maior dos mais pobres e, em contrapartida, fazer mais ricos os que sempre ganharam.

Se alguma coisa pode ser dita, além disso, é possível que algumas delas possam estar contidas abaixo: 1. O maior de todos os problemas brasileiros consiste na enorme e iníqua desigualdade sócio-econômica. Nesse caso, ficou transparente a diferença entre o tratamento que sucessivos governos têm dado aos pobres, comparativamente aos ricos. Estes, dos quais nunca se viu um só defendendo o Sistema Único de Saúde, dispõem de recursos suficientes apara buscar serviços de saúde e educação regiamente pagos. Aos outros tem restado acomodar-se à permanente tentativa de fragilização desses serviços, sem os quais sua vida se torna ainda mais difícil. 2. O peso dos problemas sempre recai sobre os mais fracos e mais pobres. Talvez esse seja um tópico que se tornou francamente exposto, por causa da pandemia. Enquanto os pobres vêm sendo submetidos a vexames, sacrifícios e humilhações para receber o auxílio que o próprio governo entende como esmola, a dinheirama farta não custa a chegar à conta dos endinheirados. 3. Mais grave, fala-se na necessidade de reforçar os cofres públicos de recursos suficientes para reequilibrar as finanças nacionais. Os primeiros a comparecer ao caixa público, no entanto, são os trabalhadores e as frações mais pobres da população. É isso o que querem dizer as tais reformas previdenciária e trabalhista. Taxar as grandes fortunas continua sendo tabu enfurecidamente recusado, a que se soma o extraordinário índice de sonegação acompanhada de anistias, perdões de todo tipo, além de concessão de novos subsídios aos delinquentes fiscais. 4. Os problemas sociais continuam a ser vistos como questões policiais, repetindo o modelo importado dos Estados Unidos da América do Norte. Os níveis da violência praticada por agentes públicos o dizem.

Muito poderia ainda ser dito. Resta saber quantos se interessam por sabe-lo, tal o nível de transparência a que chegou a verdade incontestável: não é casual a desigualdade que reina nestas terras da Santa Cruz. Os milhões de crucificados estão aí, para quem os queira ver.

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