Nosso - até quando?

Resultado de uma das mais belas campanhas cívicas, “o petróleo é nosso” desembocou na criação da Petrobrás. Vivíamos então clima construtivo, em que a sociedade por suas mais legítimas lideranças buscava construir um projeto capaz de dar conta das carências e aproveitar as potencialidades, naturais e sociais. Resistência não faltou ao que poderíamos chamar projeto nacional. Com o recuo (jamais derrota) de Carlos Lacerda e seus apoiadores e aliados, a estatal do petróleo logrou atrapalhar inimigos poderosos, de que o geólogo norte-americano Walter Link é símbolo. Dele foi a sentença: na Amazônia, como em todo o território do Brasil não há nem nunca haverá petróleo. Desnecessário acrescentar, porque sabido de todos, a empresa de petróleo assumiu posição destacada no cenário internacional. Passadas as trevas impostas pelos oprobriosos anos de ditadura, vemo-nos de novo diante dos propósitos e práticas de que Link era o porta-voz. Alcançamos posição importante na produção do chamado ouro negro, tornamo-nos detentores de moderna tecnologia de prospecção em águas profundas, posicionamos o País no topo das nações em desenvolvimento. Bem conceituados e respeitados no mundo, colheu-nos a torrente de denúncias do conluio entre empresários tidos como beneméritos e servidores públicos capazes de, como Fausto, vender a alma aos diabos. Abriu-se, assim, a porteira por onde pretendem passar todas as boiadas ansiosas, desde 1954. Com a água suja, jogue-se fora também a criança. Aqui, o simbolismo do nome: lava jato. É pelo esgoto que escorrem essas águas, que de lá vieram. Pois um dos mais importantes filhotes da Petrobrás, o campo petrolífero do Urucu está ameaçado. Em seus 34 anos de existência, as atividades desenvolvidas ali mostram quanto ganham o País e o povo, com as práticas introduzidas. Se os cuidados ambientais e sanitários têm sido reconhecidos e destacados, menores não são os impactos favoráveis à população. Para não ir muito longe, bastaria mencionar a arrecadação de tributos com base na exploração do petróleo e do gás natural. A venda da base de Urucu e a outorga de sua exploração é mais um atentado contra a Amazônia e as populações que a habitam. Reagir a esse propósito malsão não é gesto gratuito, mas o mais evidente ato de patriotismo. Pelos que acham meritório proclamar essa condição, nada será mais obrigatório. Para as populações da Amazônia, defender a manutenção da Petrobrás e de Urucu jamais será favor prestado, mas ato de vontade e de compromisso. A vontade de contribuir para o bem-estar dos semelhantes e o compromisso com as próximas gerações. Como a Petrobrás, Urucu é nosso - e ninguém tasca!

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