Normalidade trágica – e indesejável

No caboclo--irmão José de Ribamar Bessa Freire, para os que o admiram e estimam de verdade apenas Babá, busco inspiração e tema para estas mal alinhavadas linhas. Sei que meu pavor pela volta ao normal tem muito a ver com isso. Como ele, mas sem o mesmo brilho, incomoda-me a normose, este tipo de doença exclusivo dos que fogem até ao que os psiquiatras chamariam normalidade. Quando a matemática pretende penetrar o mundo da inumerabilidade, dá-se mal. As quatro operações e tudo quanto mais delas decorre não conseguem dar conta do mundo, em sua variabilidade e riqueza.

Abjuro o normal das nossas cidades, onde por tudo se mata; e se mata por nada, também. Mata-se com um revólver, uma faca, tanto quanto se mata na direção de um veículo automotor. Não obstante, proclamam-se as virtudes de andar armado. No campo não é diferente, a não ser pela motivação. Nas avenidas das cidades urbanizadas, manda-se muita gente para debaixo da terra, ao mesmo tempo em que as cidades menores veem afastarem-se de cima dela pelo menos, os que dela sempre foram senhores. Também aí não faltam as armas, sendo o fogo – sim, um dos chamados quatro Elementos -, de uso generalizado. Não são apenas estes aspectos do normal traduzido em normose por Pierre Weil, tão bem citado pelo Babá, que indesejo com todas as minhas forças e esperanças. Afeta-me, também, a normalidade do desemprego. A normalidade da sonegação de impostos. A normalidade que transforma os indígenas em párias, sem sequer o direito de permanecerem em paz e produtivos na terra que deles sempre foi. Fere-me fundo a normalidade das casas sem mesa, porque não há o que pôr nelas. Ou casas que há muito deixaram de ser lares, porque o desamor as cobriu de cinzas e levou com ele a mulher indefesa e agredida, o homem feito morador de rua, as crianças cuja educação será feita nos estabelecimentos de aperfeiçoamento para onde, se tiverem sorte, serão mandadas. Normalidade exuberante, tanto quanto sua realidade, nas verbas desviadas para a satisfação de apetites paradoxais quando detectados nos que se dizem normais. Valha-me quem, dessa trágica normalidade!?

Assemelho-me ao caboclo-irmão Babá, quando contemplo a beleza do poema de François Malherbe. Captada com perfeição pelo título do texto inspirador: Pandemia e normose no espaço de uma manhã.

Que seria do mundo sem os poetas?

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