No subsolo não há bancos

Muito tem sido dito sobre o que será o mundo pós-pandemia. Movidos pela esperança mais ingênua afirmam que finalmente a esperança vencerá o ódio, o egoísmo será vencido pela comunhão, a solidariedade se imporá sobre a competição. Do alto do meu às vezes delirante otimismo, permito-me fazer algumas observações que abalam um pouco tais expectativas. Tudo quanto dizem os esperançosos líricos é o que mais desejo: uma sociedade pacífica, fraterna, solidária, em que as necessidades básicas de todos sejam plenamente atendidas, os conflitos se travem apenas no terreno das ideias, os arsenais atômicos sejam eliminados. Enfim, um mundo de Paz. (Não é gratuita a letra maiúscula). Permito-me impor obstáculos a esses desejos acalentados desde quando me entendi por gente. Os limites que imponho à minha vaidade, aos meus propósitos pessoais, aos meus sonhos individuais, aos interesses que só a mim dizem respeito são os mesmos. Por isso, não esqueço não ser esta a primeira vez em que o mundo enfrenta epidemias, sendo que outros continentes e países têm enfrentado ao longo da História fenômenos naturais e sociais de que mal se recuperaram. Ou, para ser mais preciso: só parcialmente se recuperaram. Veja-se, por exemplo, o que restou do Haiti destruído por um terremoto, e dos países africanos alvo da pilhagem e da exploração de suas riquezas faz séculos. Fico nos acontecimentos mais próximos, e o que deles restou. Do pós-guerra, uma das experiências mais trágicas, saiu a sociedade que hoje temos. A queda do muro de Berlim e a consequente extinção da União Soviética também trouxeram fartas águas para este mar de ignomínia em que todos afundamos. Do Plano Marshall, tão promissor e por isso mesmo tão ingenuamente festejado, o que sobrou? O Mundo, depois dele, acrescentou aos bens materiais reconstruídos sentimentos menos vis que os inspiradores da Segunda Guerra? Como dizê-lo, se ainda há os que negam o Holocausto, além dos que dizem que Hitler estava certo? As desigualdade com todas as suas faces malignas foi ao menos reduzida? Ao contrário, desde lá não se tem visto se não aumentar o número dos que tudo precisam e ainda assim cada dia menos têm, ao lado dos poucos que se minimizam, acumulando cada dia mais.

Quisera ser ainda menino, quase uma folha em branco onde se registra apenas o que está no DNA dos sucessores, para acreditar no alimento da hipocrisia que permeia nossos dias. Ser generoso será sempre melhor que ser respeitoso. Parecer sensato e revelar ostensivo sadismo nas ações é mais fácil, por isso que muitos o preferem. Acumular à custa do outro sempre será mais confortável (indigno também) que contentar-se com o que satisfaz as necessidades de cada um. Afinal, covas, individuais ou coletivas estão vedadas aos bens acumulados. Houvesse banco nas profundezas do subsolo!....

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