No rumo do passado

Como os rios, os tempos vão-se alterando e alterando tudo o que os constitui, movimentados como são. Nem sempre, porém, os seres que os habitam desejam, como os rios, chegar a uma foz e tornar-se maiores como os oceanos. Para eles correndo e concorrendo. Diferentes da pororoca, não se reconhecem como parte do todo maior para cuja formação contribuem. Por isso, resistem e tentam retroceder. Buscam o passado, não o futuro. Se vivo ainda fosse, Nélson Rodrigues os chamaria de vira-latas, porque assim é o espírito dos que colocam o farol apontado para trás. Exemplo da possibilidade de retrocesso histórico é bem o tempo em que vivemos. As ofensas à Ciência e aos que a produzem; a discriminação contra as minorias; a violência estreitando os espaços onde se pode exercer a liberdade – tudo isso mostra nossa caminhada para o passado. Por isso, torna-se emblemática a resistência em promover a vida humana, curiosa e paradoxalmente sob a invocação da liberdade. Estamos prestes a voltar ao Brasil de 1902, quando as autoridades da república e do Rio de Janeiro, então capital federal, tiveram que enfrentar a Revolta da Vacina. Em nome de uma falsa liberdade, constatamos o vínculo dessa qualidade desejável no ser humano com a morte, não com a vida. Reivindicação que caberia bem no lema ser livre para morrer, não para viver. Oswaldo Cruz e Pereira Passos sequer tinham acumulado conhecimentos de que a sociedade moderna hoje dispõe. Ousaram, no entanto, encontrar remédio para a varíola e outras doenças, em época durante a qual a caneta ainda não havia revelado todo o seu poder destruidor. Hoje, a falsa liberdade opera em desfavor da vida e opta pela morte. A ignorância é cultivada e se impõe, não importa quantas vidas sejam perdidas. Nosso 1902 ainda chegará. Ou não...

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