Nem Malthus...

Não é do palavreado indecoroso do Presidente da República que tratarei. Hábito devido à sua enciclopédica ignorância, o uso de vocabulário evitado até nos lupanares, nem por isso constrange os convivas de seus encontros comemorativos. Mesmo se não se sabe o que ele e seus áulicos têm a comemorar. Mesmo os de punhos de renda são chamados para o trágico convescote, em churrascarias ou gabinetes do poder. Muitas famílias frequentam necrotérios, cemitérios ou incineradores, enquanto os poderoso se entretêm no consumo das carnes assadas – ainda que baús-frigoríficos sejam convocados para guardar os troféus de sua triste e ignóbil empreitada. Imagino já não serem mais de 57 milhões os cúmplices do genocídio em marcha. Admito que os registros das sucessivas consultas à opinião pública autorizam descontar desse macabro concerto os desertores. Vivendo em meio ao deserto de ideias, bons propósitos e esturricados pelo desamor, permanecem outros, devotando às mãos a tarefa de manipular terços e rosários, para que seu deus acolha o produto da mortandade aplaudida, endossada, requerida. Outros baús os mobilizam. Muito diferentes das madeiras em que se acomodam corpos inertes, aos quais se terá negado até o oxigênio sem o qual inexiste vida. Antes, porém, eram a caneta e os vermes cujas (sujas?) mãos ostentavam, o vírus matador sem culpa ou remorso. Disso tratam os números relativos ao (des)emprego. Este, não mais que um motivo de júbilo, como o que toma conta dos arraiais palacianos. Está em todos os jornais: autoridades vangloriando-se da criação de pouco mais de 140 mil empregos, quando passa dos 14 milhões o número de desempregados. Isso tudo, depois de promover verdadeira guerra contra os que trabalham. De tal sorte, que o sequestro de direitos protetores das classes que esse tipo de gente vê sempre como subalterna não lhe basta para acalmar a ganância, em voracidade jamais revelada. Ainda bem – devem estar dizendo, por enquanto às escondidas – que uma pandemia mostra sua cara e permite levar às últimas consequências a destruição de que nem Malthus teria exata compreensão.

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