Nem amigo, nem inimigo – observador apenas

Atribuir erro a toda e qualquer decisão governamental de qualquer governo, só pode ser conduta de adversários cujo autoritarismo é intrínseco. Os que veem o mundo segundo sua óptica particular, fundada no mais perfeito e acabado maniqueísmo. É isso – ou aquilo, pronto!

Os que percebem as nuances presentes em todo gesto e decisão humanos sabem não ser bem assim. Por isso, têm convivência melhor com seus iguais e desejam ambiente democrático a emoldurar sua vida.

Não é, portanto, invalidando toda manifestação oriunda do poder instituído que se fará justiça. Como não o é, se o contrário ocorrer: o aplauso e o encômio a tudo quanto proceda dos gabinetes onde o poder se instala. Se a primeira conduta acaba por comprometer o equilíbrio exigível de críticos e comentaristas, a outra peca pela subserviência ou a paixão, ao ponto do fanatismo.

Não é a credibilidade ou não dos críticos ou apoiadores do atual governo que me preocupa. Pensem o que pensarem, ajam como agirem, o máximo que produzirão em mim é a pena – quando se trata dos inimigos (sim, porque seria demasiado generoso chama-los adversários); ou o nojo, sentimento que reservo aos que se assemelham aos vermes.

O que me preocupa são as consequências das decisões governamentais sobre nossas vidas, a minha e a de todos os outros que considero semelhantes. Pela abrangência do meu interesse, há muito decidi afastar-me completamente de qualquer partido político. E aqui começo a argumentar.

É compreensível que algumas posições políticas levem o indivíduo a deixar de lado certas crenças e lealdades, porque os interesses partidários assim o exigem. Desde que, é óbvio, não se trate de questão de princípio ou de valores. Sem esse tipo de resignação (nem digo renúncia), torna-se praticamente impossível a vida em sociedade. Mais tolerância que renúncia, é o que nos cobra a vida civilizada.

Quando o que se diz cristão é o mesmo que se pauta pela máxima “bandido bom é bandido morto”, não cabe a tolerância. Primeiro, porque o preceito não encontra guarida em qualquer dos textos que se supõe objeto da leitura do suposto admirador de Jesus. Depois, porque a sociedade faz séculos superou as práticas de Talião. Desde quando Cesare Beccaria criou o Direito Penal, é barbárie tudo quanto o contrarie.

Isto posto, é preciso dizer quantos males têm agravado a vida dos brasileiros, a partir de 1 de janeiro de 2019. Não porque todas as decisões de Jair Bolsonaro tenham sido erradas. Acho, pessoalmente, que não é bem de erro que se trata, mas da escolha dos beneficiários das decisões. Porque – e aqui ouso repetir-me – governo nenhum erra. Sempre escolhe aqueles aos quais aproveita a decisão.

Também não chego ao ponto de dizer que só más intenções cabem na cabeça do Presidente. Ele por certo alimentará a esperança de ser respeitado e deixar seu nome positivamente registrado na História. Como qualquer um de nós.

Talvez não lhe ocorra, porém (e não é só ele que padece deste mal), o dever de cumprir alguns protocolos intrínsecos à natureza e à grandeza do cargo que ocupa. Daí a linguagem tosca, a leviandade das promessas, o culto a certa hilaridade, em nada concorrentes para torna-lo digno do posto ocupado.

Longe de mim sequer discutir a legitimidade da eleição de Bolsonaro, a despeito das mensagens disparadas através de fake news e outros expedientes de que a História se ocupará. Afinal, a apoiá-lo houve quase 40% do eleitorado, número próximo de 60 milhões de brasileiros maiores de 16 anos. Discuto, no entanto, o despreparo dele e dos que arregimentou para governar o País.

Não há um só dia, desde o início do ano passado, em que esteja ausente a marca da improvisação, o timbre da leviandade, o selo do descompromisso com os mais pobres do País. Ao contrário, as decisões parecem inspirar-se em arroubos juvenis. As propostas assemelham-se a arreglos entre interesses particulares. As vezes em que o dito pela manhã é desmentido à tarde, podendo ser restaurado à noite, dizem bem do que estou tratando.

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