Negócio lucrativo

Em seu breve e excelente livro As intermitências da morte, o extraordinário escritor português José Saramago aborda o ato final da vida como fenômeno econômico. Dos mais importantes, é bom dizer. Sem nenhum pudor por antecipar desfecho do livro paradoxalmente bem-humorado, informo que o texto do Prêmio Nobel de Literatura (1998) imagina uma greve da Indesejável. Todo o sistema econômico experimentaria notável desarranjo. Poucos setores sobreviveriam; desde os hospitais até as religiões seriam postas em xeque, se ninguém morresse. Vários setores industriais (fábricas de caixões, velas, mausoléus etc.), comerciais (serviços funerários, em geral), agrícolas (floricultura, por exemplo) seriam afetados. Outros serviços, como hospitais, não teriam como atender à enorme demanda de moribundos necessitados de vagas em unidades hospitalares abarrotadas de enfermos impedidos de morrer. Como esperar a ressurreição prometida, se morrer tornou-se impossível? O Tribunal de Contas do Amazonas ratifica a posição do escritor lusitano, ao invalidar processo licitatório para a construção e exploração de dois cemitérios em Manaus. Segundo a conselheira Yara Lins, a licitação Municipal 06/2020 tem cartas marcadas. Ou seja, é direcionada ao benefício de alguns espertos na exploração da morte como fonte de lucro. Por isso, o TCE já suspendeu o processo licitatório. Até certo ponto, contenha a ilicitude que contiver, nada há de surpresa no processo em si, nestes tempos de enriquecimento ilícito, quando a pandemia multiplica números nas contas bancárias dos espertalhões. Além de oferecer alternativas ao uso de peças do vestuário masculino. Nem um vice-líder do governo federal passou ao largo das cuecas. Sentiu apenas a necessidade de torna-las mais largas...


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