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O Exemplo do Brasil

Atualizado: 22 de Ago de 2019

Quem deseje saber do caráter autoritário ou liberal de um governo não precisa ler bibliotecas inteiras, nem visitar numerosos países. Mesmo quando nenhum projeto de nação serviu de escada para a subida ao poder, as escolhas dos governantes deixam à mostra sua índole, muitas vezes a própria vocação do eleito.

No caso brasileiro, não há quem negue a tenaz fuga ao debate mantida pelo então candidato Jair Bolsonaro. Nesse sentido, sempre será forçoso reconhecer quanto a facada recebida por ele em cidade do interior mineiro ainda justifica suspeitas. Não que esteja definitivamente descartada a hipótese oficial: o candidato foi vítima de adversários ou, no máximo, de um doente mental.

Queiramos ou não, seja qual for a causa ou o pretexto, o fato é ficar o registro do episódio como um atentado, de que o ex-capitão teria sido vítima. Nem vem mais ao caso discutir se outros foram os mandantes, se outros motivos tenham concorrido para pôr o candidato a salvo de manifestar suas próprias ideias ou apresentar um esboço que fosse do que faria, se eleito Presidente. Caso ele disponha de umas e do outro.

Outro fato, a eleição sob o escrutínio de quase 60 milhões de votantes, desloca o foco das atenções gerais. Isso não elimina, porém, os restos de suspeita sobre vários acontecimentos, anteriores, simultâneos ou posteriores à facada sofrida por Jair Bolsonaro. Nem elimina outra consequência dela: o afastamento do candidato de qualquer debate dos que puseram em confronto diferentes e claros propósitos.

Pela absoluta ausência, dos debates e do conteúdo que eles obrigariam a revelar, o agora Presidente não mostrou a que vinha. É certo que, dias após ter assumido seu posto, ele se confessou incapaz de governar o País. Ninguém o representou nessa confissão. Foi ele mesmo que o disse, com todas as palavras, pobre e chulo que seja seu vocabulário.

Nada melhor que um dia após o outro, diziam os antigos. Melhor ainda, quando há uma noite entre eles.

Daí que, já nos primeiros meses de seu mandato, Jair Bolsonaro volta suas armas e sua língua na direção de instituições postas na alça de mira de qualquer governante que aspira à propriedade da única, fundamental e incontrastável verdade. Rápida leitura dos livros de história permite identificar semelhanças e pinçar fenômenos e decisões que indicam certa similaridade.

Seja pela forma como se relacionam com as demais instituições republicanas, seja pelas decisões cabíveis no arbítrio de que se acham investidos, os autoritários aproximam-se. Às vezes, até como réplica de figuras cuja entrada na História se deu pela porta dos fundos ou pela janela lateral que o clima democrático não consegue fechar. Ainda bem.

Na Alemanha dos anos 20 do século passado, figura inspirada no preconceito racial começou como cabo, antes de desfazer a república de Weimar e fazer o que a sociedade humana conhece como uma das piores manchas que marcam a trajetória dos povos. Os judeus podem dizer melhor que qualquer versado nas ciências históricas.

Incomodava o líder e seus seguidores alemães a liberdade de imprensa. A educação não era bem-vinda, se permitisse abrir cabeças e olhos dos educandos, ajudando-os a compreender o mundo e respeitar seus semelhantes. Qualquer cidadão que não correspondesse aos preconceitos do governante, teria que ser eliminado – da vida comunitária ou da vida, só.

O Brasil em que vivemos, não há como ignorar ou contestar, segue esse rumo. Paira no ar a suspeita de que a democracia incipiente acabou por gerar em seu ventre quem deseja destruí-la. À educação se tem negado até a esperança de que resolverá seus mais graves e recorrentes problemas. A saúde não é desta vez que contará com os recursos de que precisa. Seria repetir o que todos já têm dito, quanto ao ataque que algumas instituições vêm sofrendo, desde o primeiro mês deste ano.

Os órgãos incumbidos de distribuir a Justiça são agredidos, menos pelo eventual malfeito de algum ou alguns de seus membros. Na verdade, é a possibilidade de fazerem valer sua autoridade e cumprirem com as determinações constitucionais que os coloca no pau-de-arara oficial. Os meios de comunicação diariamente sofrem ataques, além de a ameaça permanente de retaliação por suas opiniões constituir a espada sobre os ombros de seus dirigentes. A promiscuidade entre o Estado e uma forma de pensar religiosa restaura passado de que muitos nos havíamos esquecido. A Polícia Federal, que a sociedade quer posta a serviço dela é pressionada para funcionar como defensora do governo.

Vai-se aos poucos descobrindo quanta razão havia para fugir ao debate. E fazer das eleições de 2018 um dos muitos simulacros de democracia conhecidos. O Brasil, mais uma vez, dando exemplo ao mundo. Pena, que mau exemplo!

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