Naufrágio ou fortaleza

A um náufrago, folhas soltas de papel flutuando sobre as águas parecerão robusto salva-vidas. Situações extremas transformam a realidade aparente e deixam à mostra sentimentos até então guardados no mais profundo do indivíduo. Daí a exposição das mais torpes motivações para as ações dos que se pensam e dizem humanos. Mesmo carecendo de algumas das condições apontadas por Hanna Arendt. A compreensão de reações próprias à situação crítica com que se depara o animal dito - mas nem sempre feito - superior imiscui-se na análise dos fatos lamentáveis a que temos assistido, quando vírus e vermes se unem, imperceptivelmente para alguns, e infelicitam uma nação de mais de 200 milhões de habitantes.

Há muitos dos observadores da cena política convencidos de que o Presidente Jair Bolsonaro está apenas em desespero. Esse raciocínio justificaria a crescente hostilidade que ele vem demonstrando, num crescendo que não se sabe quando encontrará paradeiro. Incapaz de governar o País, procurou cercar-se de generais, na expectativa que adiante se saberá se vã ou genial, esperando ter neles os fiadores de sua desastrada administração. Pouco a pouco, porém, sente-se o mal-estar de que alguns dos que se negaram a tê-lo como camarada são tomados. Especialmente quando o Presidente recusa conselhos destoantes de seu modo de resolver os problemas. Mais que todos nós, eles conhecem a trajetória do ex-militar e têm condições de avaliar os fatos atuais que têm o ex-capitão como protagonista.

Reduzido a companheiro do grupo político que seu próprio Chefe do Gabinete Institucional disse posto em correria, se o grito de " se gritar pega..." fosse dado, Bolsonaro insiste em agredir a sociedade. E repete seu culto à força física, sequer fugindo à reiteração de sua vocação autoritária. Não é outro o sentido dado ao ato de receber no aceso da crise um cidadão acusado de torturar presos. Pode até ser dito ser isso quase insignificante, diante do elogio à tortura, do culto a um dos torturadores condenados, das repetidas violências praticadas contra a Constituição, a democracia e a liberdade.

Assim, um pedaço de papel higiênico, posto ao sabor da oscilação das ondas de um mar revolto, pode parecer excelente salva-vidas.

Há, contudo, os que veem nos atos do Presidente, no cercadinho onde se espremem seus fanáticos seguidores, no enfrentamento quase diário dos que divergem de sua forma abjeta de ver o mundo, nada menos que a exibição de invencível fortaleza. A coerência - e justiça se lhe faça, excetuado tudo quanto desmente seu discurso - relativa aos preconceitos e propósitos manifestados antes de as urnas se abrirem, em 2018, asseguraria ao Presidente prestígio suficiente para manter-se no poder. Além, é claro, das burras do Erário, que se diz estarem assoberbadas de despesas quase impossíveis de pagar. Mas, para esses analistas, ele faz porque pode. Afinal, não é ele a própria Constituição? Não cabe a ele dar a canetada que pela manhã nomeia e à tarde demite? Quem manda sou eu - disse ele mais de uma vez. Só os que se acham dotados de todos os talentos e poderes seria capaz de ir tão longe. Ou apenas os que se sabem destituídos de qualquer poder?...

Uma coisa já se pode concluir: mantê-lo Presidente, quando a Constituição prescreve remédio para o mal de que ele é portador e satisfeitas já a esta altura as exigências constitucionais, é correr risco demasiado. Pode-se prever reste, cumprido o rito constitucionalmente exigido, apenas a covid-19 como o problema a enfrentar.

O naufrágio de um navegador irresponsável não justifica levar todos para o fundo do mar. Em toda embarcação que se preze há um imediato. Isso também está no "livrinho", como dizia Eurico Gaspar Dutra.


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