Nau e tormenta

Sem projeto ou com projeto de nação, o fato é que se vai consolidando na opinião pública um conjunto de anseios que nada trazem de promissor, pelo menos em termos de redução das desigualdades. Embora esta seja um dos objetivos da República Federativa do Brasil, poucos se dão conta que que nossa marcha se faz no sentido oposto. Sempre que se fala em reformar alguma coisa, não se encontram motivos para apostar em que as supostas reformas tornarão menor o fosso entre os que têm tudo e os que nada têm. Ao contrário, ao mesmo tempo em que as forças do conservadorismo se arregimentam, promovem o amplo convencimento dos setores mais apenados pela injustiça social. Daí verificar-se a dependência cada dia maior da maioria dos brasileiros de políticas distantes dos objetivos constitucionais. Pior, quando as falsas razões com que se tenta justificar as tais reformas se fundam em preconceitos e, ao final, nas chamadas fake-news. O império da mentira, não mais.

Nesse caldo poluído flutuam políticos voltados para seus próprios umbigos, ganhadores de dinheiro posando de empresários, intelectuais e homens da comunicação atrelados aos interesses dos poderosos. A compensação que viria do outro lado padece da desmobilização intencional, da cooptação, do aparelhamento e da criminalização de todo gesto que traga consigo um projeto diferente. Não é estranho, portanto, assistirmos à morte de cem mil brasileiros, aos sobreviventes restando a dor da perda, a ameaça de infecção, a incerteza, enquanto as autoridades preocupe apenas a manutenção no poder. Por isso, as eleições de 2022 foram antecipadas. Quem abriu o calendário eleitora, desta vez não foi o órgão especializado da Justiça, mas o Planalto. A rigor, desde 1 de janeiro de 2019, porque outras não têm sido as ações do Presidente da República, se não a permanente presença no palanque e a criação de clima em nada propício ao combate à pandemia, tanto quanto ao acirramento das hostilidades entre fanáticos de toda ordem.

Aqui e acolá, a intervalos temporais imprevisíveis, a debandada ocorre e expõe ainda mais a precariedade com que a república é conduzida. Nau sem rumo, encontramos os que negam o tamanho das vagas e ignoram os riscos de um mar sem ilhas.

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