Na História a lição

Ortega Y Gasset sabia das coisas. Quando ele disse que o homem é ele mesmo e suas circunstâncias definiu praticamente a trajetória eterna da humanidade. Karl Marx, um especialista seduzido pela realidade da vida humana e apaixonado pelo estudo da trajetória do homem, viu farsa, sempre que aparentemente repetida a experiência já vivida. Do alto de minha ignorância sobre a matéria, arrisco dizer: um e outro têm razão. Gasset, ao mostrar a irrecusável relação do indivíduo com tudo o que o cerca. Ao mesmo tempo em que as relações sociais vão sendo tecidas, a natureza se faz presente na vida da sociedade dita humana. Bastaria essa dupla direção do relacionamento do homem, com semelhantes, outros animais e a natureza, para perceber quão diferentes são as circunstâncias, ao longo do tempo. Nem sempre o homem muda, porém. É aí que repousa, penso, o fundamento da expressão marxiana. Como se o indivíduo permanecesse o mesmo, ainda quando as circunstâncias se alteraram. No mínimo, um anacrônico protagonista da História. Estes tempos de pandemia fizeram-me voltar os olhos para alguns vultos da História Universal, não por supostas e ignoradas virtudes que só agora eu teria descoberto, mas pelo que eles têm de semelhantes a alguns dos personagens desta agônica fase da trajetória humana. E lá vou-me dando o trabalho de encontrar similitudes, como se os séculos tivessem passado sem que a sociedade deles se tivesse dado conta. Não são apenas Hitler, Göebells, Mussolini, Eichmann, Hess que rsgato da memória. Junto com eles emergem Caesare Borgia, Nero, Herodes. Cada qual expressando tempos que se pensava definitivamente varridos do futuro, sem nenhuma chance no presente. Não é assim, porém, que se tem escrito a História, que Lulu Santos e Nélson Motta Filho veem como uma onda no mar. Por isso, salta de mim como explodido por um pesadelo a figura de César Bórgia, cujo destino religioso foi interrompido pela designação para ser o Capitão Geral da Igreja. Designou-o o próprio pai, que viria a tornar-se papa, sob o nome Alexandre VI. No mesmo ano em que Cristóvão Colombo atravessava o Atlântico para chegar ao que depois seria chamado Novo Mundo. Das peripécias de Bórgia, dos Bórgia seria mais justo dizer, teria vindo muito da inspiração de Maquiavel, um amigo da corte europeia de então. Ao Bórgia já Capitão Geral caberiam as funções de gonfoleiro, uma espécie de porta-bandeira daqueles tempos hoje recrudescidos. Talvez fossem as mesmas as bandeiras ostentadas por Herodes, 15 séculos antes. O mesmo cuja encomenda aos reis magos, não tendo sido satisfeita, nem por isso impediu a mortandade de desabar sobre os recém-nascidos no reino de Israel. Uma traição dos reis que entregaram ouro, incenso e mirra ao casal José e Maria, os primeiros visitantes de Jesus ainda na manjedoura recusaram o papel de dedos duros. O terceiro protagonista que se imiscui em nossa realidade, malgrado os milênio decorridos, chamava-se Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, vindo à Terra no século I. Se as razões imediatas do incêndio de Roma, durante seis dias inteiros, é de atribuição discutível, não o é o propósito a que serviria. Converge a indicação dos estudiosos para o desejo de Nero - esse o nome mais conhecido - de construir um grupo de edifícios onde se instalariam o imperador, sua coorte e sua corte. Onde ele contaria com área mais adequada, senão em local habitado pelos mais pobres? O local era o que hoje atrai turistas de toda parte, Roma, a capital da Itália unificada. Nem Nero morreu de todo, nem os métodos por ele e pelos seus longínquos sucessores foram revogados. Ah, melhor teria sido nunca estudar História!...

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