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Nação curupira

Para se ter ideia razoável sobre o conservadorismo de nossa sociedade, nunca será demais comparar nosso ontem com as experiências por que hoje passamos. Oportuno sob qualquer ângulo de que se o veja, o filme Ainda estou aqui, do diretor Walter Salles, registra mais que o drama de uma família, cujo chefe foi assassinado pela ditadura, e cujo corpo até hoje não foi encontrado. O relato dos que já assistiram ao filme enche-se de indignação, perplexidade e nojo. Pelo menos, assim tem chegado ao conhecimento dos que ainda não foram aos cinemas, uma época que teima em reproduzir velhos vícios e sentimentos que qualquer ser humano digno do qualificativo há de repudiar. A indignação revelada funda-se nas razões que determinaram o assassínio do deputado Rubens Paiva: a defesa dos mais pobres e o combate à desigualdade. Que, de lá até aqui, não fez se não ampliar-se, aprofundar-se e ser tomada como algo normal. A perplexidade resulta da percepção do sacrifício imposto à maioria dos brasileiros, os pobres e miseráveis, e do preço pago pelos que à época pretendiam construir uma nação à altura de bem aproveitar suas potencialidades e gerar uma sociedade feliz e próspera. O nojo está ligado às práticas como a que determinou a morte do parlamentar paulista, sendo difícil aceitar que seres iguais a todos os demais chegassem à violência em seu mais alto grau. Mesmo assim, agravada pelas circunstâncias em que ocorreu o desaparecimento daquele ser humano cujo crime terá sido o de defender a ordem constitucional e reivindicar o respeito aos seus semelhantes. Não bastassem as cenas do filme, como elas me têm sido contadas, mais as informações que, como estudante e militante da política universitária, colhi ao vivo, divulga-se o pronunciamento do morto pela ditadura, na madrugada de 01 de abril de 1964. Rubens Paiva fê-la na emissora Nacional do Rio de Janeiro, em rede de emissoras de rádio distribuídas pelo País. Verdadeira proclamação feita à nação, em especial aos trabalhadores e estudantes, como disse o parlamentar, as palavras não são diferentes das que descrevem o cenário atual, em que mais profunda se tornou a desigualdade entre nós. É o ontem visitando o hoje e nele querendo reinstalar-se, tornando-nos uma nação curupira, em que os pés com dedos para trás, diferentemente da figura mitológica, tivessem a sina de andar na marcha-a-ré. Para os que desejarem ouvir a proclamação de Rubens Paiva, aqui vai o link: https://youtu.be/YdWGPqEwd_k?si=vRmEPpW-p47pgECh


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