Números e realidade


Mais do que discursos e informações distribuídas sob a forma de press releases, o orçamento público revela as preferências e os objetivos de qualquer governo. Lá estão consignadas, em números tão ao gosto de certos analistas, as atividades que serão estimuladas, apoiadas, financiadas com o dinheiro com que o contribuinte abarrota as burras do Erário. A destinação de recursos, sua alocação como gostam de dizer os economistas, obedece a alguma lógica, seja ela qual for. Por isso, a tentativa de espichar o dinheiro da Renda Cidadã (o Bolsa Família de Lula, repaginado) com recursos tirados do FUNDEB e dos precatórios diz mais do que aparenta. Pior, iludindo os supostos beneficiários do miserável auxílio, pois a mão que dá é menor do que a mão que tira deles a educação necessária. Típica do mau populismo, a decisão todos sabem inconsistente, sobretudo porque peça de uma tragicomédia conhecida. O propósito de reeleger-se, mais que de outra coisa qualquer, é indiscutível na ação do Presidente Jair Bolsonaro. Dizer das sucessivas contradições em que ele incorre é pouco, enquanto os que se autointitulam oposicionistas não fazem o menor esforço para leva-lo a vencer a distância entre a palavra e a ação. A própria discussão sobre a reforma tributária padece do mesmo vício. É sabido quão limitada é a capacidade de atender a toas as necessidades sociais, porque o governo não tem o dinheiro exigido. Também se sabe não estarem sendo cumpridos os mandamentos constitucionais, em relação ao atendimento satisfatório da população, em quase todas as áreas. Disso mesmo podem reclamar os setores chamados produtivos, sendo que neste caso estão concentrados os que escapam a qualquer constrangimento. Porque, na outra margem, ignora-se propositalmente quanto devem aos cofres públicos, cifra – disso também se sabe – suficiente para reduzir a incapacidade financeira do Estado brasileiro. O trâmite quase esquecido de projeto que taxa as grandes fortunas não é fortuito, nem foge à regra geral: tirar de quem não tem, para dar mais aos que já têm.

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