Não–e não somente ao fundo bilionário*

Fossem os ladrões menos espertos que a maioria dos cidadãos, o sucesso dos fabricantes de aparelhos e instrumentos de segurança estaria comprometido. Os dados apurados revelam excepcional lucro, lançado nos livros contábeis de empresas dedicadas a esse setor de atividades econômicas. Desde o pequeno dispositivo que arma os alarmes residenciais, passando pela blindagem de veículos que transportam valores ou seus donos até sofisticados equipamentos – tudo isso prospera, quando o Estado não tem (ou finge não ter) meios de impedir a roubalheira generalizada. O cotidiano de nossas cidades, já não importam seu tamanho e o tamanho de sua população, não permite ilusões.

O ladrão de rua, o punguista, ou o arrombador de portas e janelas e os assaltantes à mão armada, no entanto, são apenas parte desse universo de indivíduos vocacionados para as atividades marginais. Quando não, empurrados para elas pelos motivos sociais tão estimulantes dos debates. Há outros – chamemos assim – segmentos desse mesmo universo, que se movem à luz do sol, muitas vezes desfrutando de facilidades cobertas pelo exercício de um mandato. Mais lamentável, mandato outorgado pelos mesmos cidadãos que reclamam da maléfica ação dos que se dizem representantes do interesse coletivo.

É disso que se trata, quando os deputados colocam um bode na sala, na expectativa de, vendo-se livres do mau cheiro e dos incômodos que o ruminante exala e determina, sacam do bolso a providência alvissareira.

Tendo dificuldade em saquear os cofres públicos em mais uma de suas malsãs investidas, desejam financiar suas campanhas políticas com alguns bilhões de reais tirados do bolso dos que neles votarão. Reconhecem o estado de crise por que passamos, mas não se pejam de avançar sobre o dinheiro público, já não bastasse a atual importância que paga os custos de nossa democracia claudicante.

Agora, a volta do financiamento privado (o que, em boa e honesta linguagem quer dizer investimento empresarial) é oferecida como compensação à inviabilidade de criação do Fundo Partidário, contado aos bilhões de reais. Nem parece que a Lava Jato tem posto a nu o caráter criminoso da participação de dinheiro privado (quase sempre gerado pelas burras do Erário) nas eleições. Parece menos, ainda, que os políticos substituíram funções subordinadas às aspirações populares, pelo empenho em enriquecer materialmente. Só materialmente, jamais será dispensável destacar.

Não basta para saciar a voracidade de políticos inescrupulosos, contar com os atuais valores, distribuídos, a nosso juízo, de forma a perpetuar o poder, não a permitir a necessária e desejável rotatividade. Embora este seja um dos atributos de uma boa democracia, o que a forma como os recursos são distribuídos propiciando a manutenção dos poderosos, não os ameaça de qualquer perda. Mesmo quando mandados para trás das grades, sua ética própria os faz apreciar mais a conta bancária e os bens que a liberdade. A vergonha, também, o mesmo ocorrendo com seus financiadores.

Negar a criação do bilionário fundo, mais que impedir o enriquecimento dos ladrões de casaca, ainda é pouco. Manter o atual fundo partidário e distribuí-lo segundo critérios menos propícios à frustração da rotatividade no poder é tarefa que se impõe.

Por isso, dizer NÃO ao Fundo pretendido só alcançará sua completude, se determinar o rateio igual, dividido o montante do Fundo atual pelo número de siglas que tiverem candidatos inscritos. ________________________________________________________________________________

*Discutia-se, à época(agosto de 2017), a aprovação do Fundo Partidário.

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