Não é derrota

Atualizado: 22 de Nov de 2019

Que muitos se neguem a ver a realidade é admissível. Afinal, é desigual o nível de entendimento que as pessoas têm dos fatos e das coisas. Se as pessoas têm as mesmas condições de acesso às informações, e ainda assim é diversa a percepção entre elas, prudente seria buscar as razões disso. Interesses, experiências, sentimentos - e tantas outras coisas - talvez expliquem as diferenças. Inadmissível, porém, repetir o erro uma segunda, uma terceira, uma quarta...vezes. Ainda mais pela grande probabilidade de que a escolha não seja errada para o que dela se beneficia.

A tentativa do ex-Presidente Lula de liderar as forças de esquerda na próxima eleição não pode seduzir as pessoas sensatas. O que nada tem a ver com a obrigação de todo democrata de impedir que o cidadão Luís Inácio Lula da Silva tenha violados os direitos ofendidos pelos vingadores da Lava Jato.

Apresentar-se como candidato obrigatório à Presidência, em 2022, soa-me a uma ofensa ao discernimento dos brasileiros, Mais, ainda, quando reivindica para si o direito de liderar as esquerdas.

Não há qualquer propósito moralista nesta minha posição. Inspiram-me considerações de ordem meramente política, avessas ao fanatismo que fez praça entre nós.

Cito fatos que, no mínimo, devem ser levados em conta, na formação da inevitável frente que se oporá ao bolsonarismo ou a qualquer outro arranjo das forças de direita.

Enumero tais fatos, indicados sem qualquer pretensão exaustiva.

1. A reiterada manifestação do ex-líder operário, a respeito da esquerda. Nesse caso, quando o Partido Comunista, pelo próprio irmão de Lula, o convidou para inscrever-se na legenda, o ex-Presidente recusou fazê-lo e sempre desmentiu com ênfase que fosse esquerdista.

2. A Carta aos Brasileiros, documento de rendição que viabilizou a subida da rampa do Planalto não é menos que renúncia às propostas que catapultaram a escalada política de Lula. No mínimo, terá sido ato de exagerado oportunismo. Se o pôs na Presidência, fê-lo também refém dos grandes capitais. A Lava Jato, ressalvas já feitas acima aqui repetidas, mostra qual a bagagem descartada - a que interessava ao povo e a que agradava aos ricos.

3. As conquistas duramente alcançadas, redutoras do número de miseráveis, não se sustentou ao menor sopro. Ruiu como um castelo de cartas. O Bolsa-Família, uma das mais promissoras e justamente festejadas ações políticas, dispensou iniciativas que consolidariam as conquistas e tornariam mais difícil desmonta-las, como vem ocorrendo.

4. A insistência em manter uma candidatura do Partido dos Trabalhadores na concorrência com Jair Bolsonaro, do ponto de vista dos que desejam ampliar e consolidar a democracia, não poderia ser pior. Havia alternativa e Lula não a admitiu. O resultado foi, menos que possibilitar a tomada do poder pela extrema direita (e pelo voto), desbaratar a união das forças democráticas, além de prejudicar a ascensão de Fernando Haddad, como liderança política nacional. Excluir companheiros parece da índole de Lula.

5. Por último, mesmo deixando a extensa lista incompleta, o exclusivismo cultuado por Lula, sempre a seu favor. Todos diziam que Dilma Rousseff apenas guardaria o lugar dele para voltar à Presidência, em 2014. Jamais acreditei nessa hipótese, afinal desmentida. O antipetismo cresceu e isso facilitou a subida de Bolsonaro.

Lula insiste na pretensão de líder exclusivo. Esquece até sua recusa reiterada de ser confundido com os "de esquerda". Para ele, só em si podem ser depositadas as esperanças e os votos dos brasileiros. Se Ciro tem jogado fora suas chances pela boca pouco hábil, não é o ex-Presidente a melhor alternativa, pelo menos opor enquanto. Dificultam apoiá-lo, além de tudo isso, as notícias (ou insinuações e rumores apenas?) de que tenta reaproximar-se dos militares e costura uma aliança com a direita que torce por Luciano Huck.

Prefiro ouvir Lucius Annaeus Sêneca (04 a.C.- 65 d.C.): antes queria ser derrotado no bem, que vencer no mal.

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