Não à ignorância

Gerações anteriores à nossa podem ter se decepcionado com a qualidade dos políticos de seu tempo. Talvez como nós, cresceram acreditando na hipótese de viver num mundo menos desigual, em permanente processo de aperfeiçoamento, individual e coletivo. Quando os avanços científicos e tecnológicos proveriam todas as mesas e ao tempo de trabalho reduzido corresponderia o desfrute de lazer, cultura, turismo e convívio familiar. Para isso seriam pagos aos trabalhadores salários dignos, suficientes para manter padrão de vida humanamente digno. Os patrões, contidas a ganância e a avareza que lhes dá o ânimo produtivo, acumulariam o suficiente para uma vida de luxo, sem aspirações faraônicas. Afinal, se Tutancâmon e Ramsés nada puderam fazer com as riquezas guardadas com eles no mausoléu, menos provável seria fazerem-no os homens dos séculos XX e XXI. Justo, portanto, esperar que nossos pais pudessem legar-nos o mundo que eles não receberam de nossos avôs. Sentia-se quanto fizeram para cumprir a promessa, mesmo sabendo que o resultado não dependia só deles. Contavam, os pais do século XX, porém, com meios de que não dispunham os seus genitores e progenitores. Não havia penicilina, o avião mal havia sido posto a voar, à Medicina ainda não era possível perscrutar nos mais escondidos recantos de nosso esqueleto. As comunicações a distância eram praticamente impossíveis. A eletrônica vivia sua primeira infância; de robôs, nem falar! Sobreviventes daqueles tempos, encontramos razões para acreditar que conosco e nossos herdeiros tudo seria diferente. Poucas horas de viagem aérea e segura nos poriam no lugar mais distante do Planeta. Anualmente expomos os órgãos ao vasculho de sofisticadas geringonças eletrônicas e em poucos dias estaremos curados das mesmas doenças que mataram tantos dos que nos antecederam. O mundo avançava – imaginávamos – e seríamos todos beneficiários dos avanços da Ciência e da Tecnologia. Inebriados e deslumbrados com tanta facilidade, esquecemo-nos de que todos os avanços são obra humana e, nessa condição, sujeitos a serem aproveitados para o bem e para o mal. Talvez, fossem os criadores e inventores os únicos operadores de seus inventos, o resultado seria melhor – talvez! É aí que acontece de lembrarmos estar nas mãos dos governantes o uso dos instrumentos criados. Em si mesmos, não é possível encontrar sentido no avião, na penicilina, no robô e em tudo o mais que o homem cria. E no que, críamos nós, proporcionaria vida digna para todos. Enquanto contemplo meus netos perplexos com acontecimentos inimagináveis para suas cabeças adolescentes, não escapo à comparação do ontem com o hoje. Sem o menor saudosismo, mas com enorme sensação de lhes deixar como herança um mundo pior do que o encontrei, indago-me, algo envergonhado: a gente posta na Terra foi o preço pago para avançar tanto na Ciência e na Tecnologia? Se houver como contabilizar essas informações, como eu gostaria de conhecer o balanço! Na coluna do haver, de imediato eu colocaria os cientistas e outros que recusam ser ignorantes.

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