Não, à cumplicidade indesejada

Dois trechos da resposta do Presidente Bolsonaro ao general Edson Pujol chamam a atenção de quantos queiram entender o cenário político. Era previsível a manifestação do ex-capitão, cada hora mais sentindo a necessidade de mencionar dispor de uma caneta Bic. Em suas mãos, nem pólvora nem saliva tem tanta serventia. Depois de declarar guerra aos Estados Unidos da América do Norte e comemorar a suspensão da pesquisa que busca uma vacina de combate à covid-19, o Presidente foi contrariado por seus próprios auxiliares, dois deles contados dentre os que no mínimo assistiram sua exclusão das forças armadas. O general-vice-Presidente desagradou o chefe, ao admitir, como indivíduo – esclarecido pelo próprio general Hamilton Mourão – a vitória de Joe Biden para a Presidência dos Estados Unidos. Já o Ministro da Defesa expressou o sentimento das forças, que “não são órgão de um governo, mas instituição de Estado”. Por isso, a advertência encontrada nas entrevozes, dada a oralidade do discurso: não espere Bolsonaro o engajamento do Exército, Marinha e Aeronáutica na luta política e partidária. Que, poucas horas depois, o vice-Presidente endossou, ao lembrar que quando a política entra pela porta do quartel, a hierarquia e a disciplina saem pela porta dos fundos. Aí, a fragilidade do Presidente sentiu-se desafiada e deu o troco. Vemo-lo no início da nota, quando destaca o fato de Pujol ocupar o cargo que ocupa por obra - da Bic presidencial, e graça do convite de quem a ostenta. Posta entre parênteses, essa circunstância diz muito mais do que se lê. A outra passagem está no final da nota e funciona como remate do recado. Bolsonaro subverte a Constituição e volta a atribuir às forças a guarda da Lei Magna, ao mesmo tempo em que dá o que na linguagem militar se chama mijada. Elas podem sim intervir, chamadas por algum dos poderes. Não se esgota aí, no entanto, a sensação de ameaça que intranquiliza o Presidente. Bolsonaro sentiu a necessidade de afirmar ser ele o comandante-em-chefe de todas as forças. Como reagirão os quartéis é impossível prever com razoável grau de certeza. Não o é, porém, estimar o crescente desprestigio da instituição militar, a persistir a recusa do Presidente em se submeter à Constituição, enquanto todos esperam a justa e vigorosa reação dos auxiliares fardados.

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