Não à bomba!

Durante muitos anos de minha idade adulta, cri na conveniência de o Brasil criar sua bomba atômica. Argumentava com a realidade da guerra fria, período em que os detentores desse artefato maligno viram-se forçados a conter seu ímpeto belicoso. Uma espécie de freios e contrapesos que asseguraram precário equilíbrio e evitaram o conflito generalizado, a hecatombe. Em compensação, criaram-se novas formas de domínio e submissão, de que as intervenções bélicas localizadas e a exploração sob as mais diversas e perversas formas espalhadas pelo mundo dão eloquente testemunho. Não se surpreenda o leitor com minha atual recusa pela construção de uma bomba atômica brasileira. Não creio extemporâneo o abandono da posição, diante dos fatos de que sou contemporâneo. Menos surpresa há na consideração e na opinião atual, sustentadas na observação de fatos e pessoas neles envolvidas. E – aqui, talvez, a maior surpresa – foi a abjeta figura de Donald Trump quem me fez mudar de opinião. Opção, será melhor dizer. É possível que o trágico êxito da pregação do quase-ex-Presidente dos Estados Unidos da América do Norte tenha muito a ver com minha mudança. Acredito que muitos dos meus contemporâneos pelo menos uma vez viram provável o acionamento da tecla posta à disposição da autoridade maior da mais bélica e poderosa nação ocidental. O mundo, em questão de segundos, não seria mais que Nagasaki e Hiroshima ampliadas. Pode ser até que, tentado pelo mito da cordialidade brasileira, ninguém seria capaz de imaginar o dedo de nosso governante pressionando seu botão vermelho. Tal improbabilidade mostra-se hoje revogada. Mudaram os tempos, mudaram os homens, mudo eu. E falo, escrevo depois de muito ver e ouvir: fazer tudo quanto for possível para eliminar todos os arsenais atômicos sempre será melhor que aumentar o risco de criar e multiplicar Nagasaki e Hiroshima. Basta-nos a experiência norte-americana em terras orientais, da qual ainda hoje a Terra purga as consequências. E, na sequência, caminhar em direção a um mundo cujas armas, generalizadas, irrecusáveis, serão o conhecimento e o amor ao próximo e à vida. Talvez esse seja o único caminho para alcançar a liberdade, a fraternidade e a igualdade, velhas de 231 anos.

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