Monocaminho


Leio os jornais e avalio a frequência com que se preocupam as lideranças políticas e empresariais com o que virá depois da pandemia. Enquanto os pensadores, filósofos, poetas, psicólogos, sociólogos, antropólogos, teólogos, artistas e religiosos buscam pistas sobre as formas de relacionamento dos humanos entre si e com a natureza, não encontro dentre aquelas, qualquer palavra referente a isso. Esse parece fenômeno absolutamente alheio às suas preocupações. Portanto, nada dizem em relação às suas próprias vidas. Pior, à vida daqueles com quem, obrigatoriamente, são relacionados. Os fornecedores, os clientes, seus próprios familiares. Isso me faz lembrar de um celebrado (por mim, nem tanto) professor norte-americano de administração, Peter Drucker. O mestre ianque dizia estarem fora das empresas seus centros de lucro. Dentro delas há apenas centros de custo. Até admito a validade da afirmação. Ainda mais se a razão única de viver e o ambiente único em que a vida se há de passar é uma empresa, condenada a buscar fora dela o único e sagrado objetivo dos que a controlam: o lucro. Aí, então, compreendo o silêncio sobre o que nos espera, enquanto seres humanos. Interessa àqueles outros o futuro de seus negócios, não o de suas vidas. Como se, posto nos bancos ou dilapidado em orgias e desperdício, seu dinheiro lhes assegurasse a paz e a imunidade contra eventual versão atualizada do coronavírus insidioso e voraz, tal o que estamos vendo dizimar parte da população do mundo.

Detenho-me na realidade mais próxima, a de uma cidade que ostenta o 6° lugar dentre as economias de cidades brasileiras, considerada neste exato momento em que escrevo, o epicentro da pandemia. Uma espécie de arena romana, onde mais os leões atuam para matar cristãos em sacrifício não-ritual. Lamento a impossibilidade de surpreender-me ou assustar-me. Não tem sido diferente, desde que o sofrimento da época da borracha foi condenado ao esquecimento. O delenda memoria foi o melhor antídoto à reflexão sensata, o melhor veneno contra a solidariedade. Quê me importa que tantos sofram, se isso nada me faz sofrer? Que me importa que muitos morram, se tenho assegurados bons serviços médicos, excepcionais oportunidades de turismo e lazer, escola de boa qualidade para meus filhos? Danem-se os outros, agradecidos por que sem os empregos que lhes oferecemos, ficarão ainda em pior situação?

Não me incluo dentre os que aplaudem e recolhem migalhas atiradas como se atiram grãos de milho aos pombos da praça de São Marcos. E não é de hoje. Faz tempo, alertei para o fato de que não tardaria o momento em que nossa economia seria controlada não pelos interesses da população regional. Nem dos empresários que assim podem ser classificados. Os supostos potentados locais acabariam por tornar-se dependentes, assalariados ou não, dos grandes grupos internacionais, das empresas transnacionais. E, quando fosse a hora julgada pelos controladores, teria o destino a que agora damos testemunho. Também faz tempo, advogo a alteração nos propósitos e fundamentos de qualquer esforço econômico e produtivo: o aproveitamento da imensurável riqueza que a natureza nos proporciona e põe à disposição. O que temos feito? Aquilo que Samuel Benchimol, com a autoridade de quem pensou a Amazônia como uma nova terra da promissão, afirmou: a monocultura industrial.

É disso que padecemos hoje. Não é disso que pretendem sair as lideranças empresariais e políticas. Bastando aos primeiros amealhar o que cai das mesas lautas e opulentas dos patrões, sejam de onde sejam, venham de onde vierem. Os que lhes dão cobertura para deixar tudo ficar como sempre foi, sentir-se-ão satisfeitos.

Por isso, insistem-se nas velhas soluções, tantas vezes experimentadas, tantas quantas são as frustrações acumuladas. Assim, as novidades não o foram, nem em 1967, quando tudo parece ter começado.

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