Modus in rebus

A pretensão à verdade única perde todo sentido, mesmo se são boas as intenções. Quando estas não conseguem provar-se boas, pior ainda qualquer generalização.

A difícil fase por que passa o Brasil não terá a menor probabilidade de ser substituída, se a tentativa de impor a verdade de uns contra a verdade dos que pensam diferente não se render. Render-se, não aos que são tomados por inimigos. A estes pode ser dado outro tratamento que não seja a agressão, o insulto, a força. É preciso, portanto, compreender que o patriotismo, por mais tosco e descabido que seja, exige solidariedade com o conterrâneo, o compatriota – para usar o jargão atrás do qual muita canalhice é escondida.

Nem seria preciso destacar as inúmeras oportunidades em que a falácia se manifesta, diante de dignitários de outras nações e símbolos próprios a elas. O simples fato de humilhar, ofender, desprezar os adversários e transformá-los em inimigos compromete o conceito dos que se dizem patriotas. Isso, se partido do cidadão comum. Quando tem sua origem em gestos e palavras emitidos e pronunciados por autoridade pública, aí então a falta se torna mais grave.

Denunciar todas as organizações não-governamentais como agentes de interesses de outras nações, menos que um simples equívoco conceitual, é grave ofensa aos cidadãos. Seja qual for o número de ONGs em funcionamento no País, ao que se saiba nenhuma delas terá fugido às determinações legais. Seja para constituir-se, seja para manter suas atividades. Pena que ninguém lembrou de alertar para minúcia interessante, no que toca o controle da autoridade pública sobre as referidas organizações. Todas, sem exceção, estão sujeitas ao controle jurisdicional do Ministério Público. Desde seus atos mais corriqueiros, até a prestação de contas da aplicação de recursos oriundos das fontes que as sustentam, delas se exige obediência às normas específicas do setor.

Ademais, o elenco de projetos que têm reduzido a incapacidade dos governantes em oferecer saúde, educação e outros serviços públicos aos contribuintes revela quanto as ONGs têm contribuído para melhorar a vida de grandes porções da população. Mesmo quando os recursos provêm do exterior, é possível manter a dignidade e a decisão dos brasileiros. Digo-o por experiência própria, durante minha passagem pela Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera-FDB.

Nesse caso, refiro-me a recursos provindos dos Estados Unidos da América do Norte (Betty and Gordon Moore Foundation e Michigan University, por exemplo), do Japão (JICA), do Reino Unido (Leeds University). Em nenhum momento a FDB se viu constrangida a atender aos interesses de nenhum desses outros países, todos interessados em melhorar as condições de vida de expressivos contingentes populacionais, assegurada a preservação da natureza.

O Amazonas dispõe de um sistema de preservação ambiental graças aos recursos que a Fundação Moore aplicou em sua constituição e implantação. Antes disso, não havia um só ribeirinho envolvido nas ações oficiais de preservação e aproveitamento racional e não-predatório dos recursos florestais.

Justo que sejam desestimulados os predadores. Mais justo, ainda, que os ocupantes tradicionais das terras tenham a oportunidade de aproveitar-se das riquezas com que a natureza dotou seus pagos. Imaginar que isso só é possível pela via da predação indiscriminada e malsã é, antes de tudo, a confissão de nossa falta de inteligência e da incompetência dos que nos têm governado.

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

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