Missão irrecusável

Faz algum tempo, a deterioração da política nacional induzia parte da sociedade a avaliar negativamente as instituições mais caras à democracia, em especial o Poder Judiciário e o Legislativo. Parecia, entretanto, ainda haver certa esperança de que ambos os poderes tudo fariam para resgatar a credibilidade em risco. Bastaria corrigir os erros de alguns dos seus membros e devolver à opinião pública a imagem anteriormente projetada. Não que a trajetória até então percorrida estivesse imune aos vícios e defeitos de muitos de seus integrantes. Havia, pelo menos, certo pudor em ir além de certos limites, seja pela sanção social iniciada no relacionamento com os colegas, seja pelo desejo de concorrer à eleição mais próxima. Num caso, era revelado o oásis de honra que habita no mais fundo de cada indivíduo. Em alguns deles, definitivamente depositado no fundo do oceano escuro que trazem dentro de si. Outros, vez por outra ou apenas raramente despertados, quebrando a rotina ignóbil. No Judiciário, as reservas legais e constitucionais (inamovibilidade e vitaliciedade, principalmente) levavam muitos dos magistrados a revelar a dignidade comprometida pelo beija-mãos a que se submetem os candidatos ao desejado posto. E acabavam por contrariar aqueles que pensavam ter comprado sua consciência e sua sentença. De qualquer maneira, ainda não era trivial a constituição de grupos como o centrão, nem chegavam à toga máxima os possuidores de escassos conhecimento e respeitabilidade. Como, apenas para exemplificar, os Ministros Hermes Lima, Afonso Arinos, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Crises graves foram enfrentadas pelo Congresso e pelo Supremo, ao longo de sua história. E sempre que a democracia era agredida, os primeiros a sofrerem tal agressão eram selecionados dentre os membros do STF e das duas Casas do Congresso. Mesmo quando essas instituições começaram a perder prestígio, a sociedade ainda depositava esperanças em que a imprensa e, em grau um pouco menor, as Forças Armadas assegurariam o respeito à Constituição. Estas, por dever constitucional e o malogro acumulado em experiencias vividas, quando aderiram à aventura, quando certos segmentos castrenses disso tiraram proveito. Sem que, necessariamente, a organização militar se tornasse mais respeitável e respeitada. De qualquer maneira, cumprida fielmente a Constituição, era o que bastaria para granjear o aplauso generalizado. O dar e receber em que se transformou a política nacional acabou por envolver na mesma rede sedutora as instituições para as quais convergem os olhares quase súplices, principalmente dos que são paupérrimos no sentimento de cidadania. Por isso, todos nos perguntamos qual a papel doss generais que cercam o Presidente da República, neste grave momento? Não que se deseje a repetição da experiência trágica que durou 21 anos. A repulsa pela tortura, pelo assassínio dos que divergem e pelo endeusamento de qualquer semelhante é, em todo caso e em qualquer oportunidade, o sentimento da grande maioria dos brasileiros. Diante de tudo o que se observa, caberia aos auxiliares imediatos do Presidente chama-lo à ordem, cavalheirescamente como ele não merece, mas com o rigor necessário, sempre que vemos um amigo à beira do precipício. Com a agravante de que, neste caso, o precipício não tragará apenas o condutor da trágica marcha, mas toda a população brasileira. Esta, sabemos, a batalha que todo brasileiro deseja ver travada, condição mínima para ratificar em atos o que as palavras repetidamente proclamam: defesa da democracia e do Estado de Direito é a nossa missão!

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