Mesmo sem humildade

É uma pena! Não há, porém, como calar diante de mais uma das reiteradas “ameaças à zona franca de Manaus”. Nem a maquiagem operada em seu nome, tornando-o Polo Industrial de Manaus, serviu para alguma coisa. Serve, todavia, a comparações constitucionalmente inadmissíveis. Decorridos mais de cinquenta anos, os problemas enfrentados parecem os mesmos. O mundo mudou, sem que as mentalidades e a usura se tenham alterado. O mínimo que seja.

Pouco a pouco, porém, foram erodindo as circunstâncias em torno do fenômeno. A economia tornando o globo cada dia menor, e os beneficiários do “modelo” (que alguns chamam projeto) quietos, porque em boca silente não entra mosquito. Desde que seja mantida a desigualdade resultante da extrema concentração da riqueza.

Começam por aí as “ameaças”, embora a grande maioria da minoria beneficiada finja nada saber. Nas cinco décadas que nos separam da criação da ZFM, manteve-se e se acelerou o processo de acumulação. Junto com ele, a seu reboque, aumentou a desigualdade. A que era uma cidade quase interiorana, de vida pacata, afável, classifica-se hoje dentre as mais violentas do País. O percentual de desempregados sobrepuja os índices antes experimentados, enquanto se multiplicam expressivamente as mazelas sociais.

Quais agentes sociais, individual e coletivamente, se têm efetivamente preocupado com tal tragédia? Apontem-me um só dos beneficiários da acumulação denunciando as autoridades públicas ou reivindicando condições sociais menos lamentáveis!

Não soa estranho, portanto, a impossibilidade de interessar e envolver toda a população em qualquer mobilização em defesa da zona franca. Diferente seria se os salários pagos à mão de obra que produz a riqueza satisfizessem todas as necessidades deles e de suas famílias. Esta não foi a opção. Apropriar-se do quanto fosse possível, sempre brandindo o pretexto do desemprego em massa sempre foi a resposta.

Por que, na verdade, pagar salários dignos e justos, se há mão de obra farta, fácil de recrutar, incapaz de resistir à fome? Por que, ademais, reivindicar melhores educação e saúde pública, se os lucros auferidos asseguram o pagamento de empresas de educação e saúde? Ainda mais quando a passagem aérea e o pagamento dos melhores hotéis profissionais do País estão à mão dos ganhadores de sempre?

Não, não é ilógico o modelo/projeto, como não o é a conduta dos seus beneficiários!

Não basta essa distância voluntária entre os interesses de uns e os de outros, o mundo pareceu não ter mudado. O neoliberalismo se impôs em todos os continentes sem que o fenômeno alcançasse os radares dos especialistas em Economia. Tanta a fé religiosa no capitalismo, que todos se dispensaram de estudar criteriosamente as mudanças operadas no Planeta. A tal ponto, que levaram seu apoio a um governo que, entra-dia-sai-dia, promove a desestruturação de setores inteiros da atividade econômica. Mesmo se os sinais do que ocorreria tivessem aparecido desde a campanha eleitoral.

Agora, uma ong (não é outra coisa a Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil) destaca-se do conjunto maldito delas, e brande a espada de Dâmocles a que está submissa a ZFM, desde o nascimento.

Seria o caso de dizer: quem pariu Matheus, que o embale. Mas não é isso que direi. Apenas peço, humildemente, que tentem pelo menos pagar bons salários e deixem parte de seus lucros investidos aqui. Mesmo sem humildade.

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