Mesa e cova

Desde que a pandemia aportou na Terra da Santa Cruz, as desigualdades com as quais convivemos impuseram a forma de reagir à covid-19. Inicialmente percebida como democrática, porque ninguém tem a imunidade assegurada, só muito depois se pode perceber serem os efeitos não mais que produto da perversa acumulação e distribuição da riqueza nacional. Não, o leitor não espere ler aqui novo discurso sobre a curva de Gini ou a convivência entre o palácio e a palafita. Se não, a rua. Refiro-me às vítimas fatais, cujo número discriminado entre os que a tudo têm acesso e os a que tudo é vedado, ainda se ignora. Para os primeiros, hospitais e aparelhos sofisticados, para os outros, as compridas filas e abundantes carências. No fim, a cova. Paralelamente, a multiplicação de fortunas de origem nem sempre honesta contrasta com a indigência cada dia mais aguda, estimulada pelo conluio entre o dinheiro e o poder. O mesmo que patrocina a manutenção das atividades econômicas, porque lucrar é preciso. Esse o lema dos que também patrocinam campanhas contra as medidas – as únicas, é bom dizer – capazes de, pelo menos, deter a velocidade com que opera a indesejável. Ou seja, a guerra deixou de representar o combate à covid-19, substituída por dois símbolos de uma realidade degradante, se o homem e sua vida importam. Do Chuí a Contamana, alinham-se as trincheiras de dois exércitos, invisíveis como o vírus mortal. A invisibilidade, porém, decorre não de sua inexistência, mas da inspiração que norteia as ações das forças combatentes. De um lado, os que proclamam e defendem a vida; às vezes, dando a sua pela dos outros. Do outro lado, seres para quem os negócios e os lucros decorrentes são o que mais importa. Aos primeiros cabe a preocupação com o prato na mesa, o emprego que permite alimentar – ainda que deficitariamente – a família. Ou o necessário apoio governamental para continuar existindo. Na trincheira adversária, as decisões se orientam pela voraz exigência, o impostergável apetite que só o suor e o sangue dos inimigos pode saciar. Assim se conta a história de uma guerra entre a mesa e a cova.

2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Como faria Rondon ?

Dê-se o nome que se quiser dar, não muda a natureza do crime de que estão ameaçados grupos indígenas do interior do Amazonas. O propósito de exterminá-los está em todos os órgãos dos media, elucidativ

Frustrações democráticas

Na marcha batida em direção ao passado, sendo buscada a ordem contra os mais fracos e o progresso andando para trás, tenta-se configurar o Brasil como uma pátria armada. Ponham-se armas nas mãos de to

A nova política

Admita-se o voto em alguém absolutamente despreparado para exercer o cargo a que aspira. Afinal, a todos deve ser dada a oportunidade de buscar o que lhe pareça melhor, até mesmo do ponto de vista mer