Mesa 2 - Saber tradicional e saber científico - diálogo para a construção do futuro regional*

Adolescente ainda, aprendi com meus professores de Filosofia que há várias formas de saber. O mundo está aí, posto para quem o quiser ver e analisar. Mudá-lo, também. Abre-se, portanto, a qualquer forma que ao homem for dado conceber, para sua compreensão e a interpretação dos incontáveis relacionamentos que aí se estabelecem.

Hão alguns de dizer: isso faz tanto tempo! Imaginem, Filosofia ainda era disciplina estudada nas escolas secundárias! Hoje já não se tem mais disso. Até porque o filosofar deixou de ser preocupação generalizada, tão empenhados em fazer coisas, criar novos objetos, geralmente descurando dos sujeitos a que tais objetos servirão - se isso será feito...

Mas foi assim que aprendi - e é assim que lhes trago meu pequeno e desimportante recado.

Cabe-me, pela generosidade e a amizade dos organizadores deste tão oportuno quão necessário encontro, moderar a mesa em que se tratará de saberes e de como eles podem contribuir para a construção do futuro da Panamazônia. Não trataremos, a não ser acidentalmente, de todas as formas que o conhecimento adquire; nem nos preocupamos com sutil diferença entre o conhecimento e o saber. Damos por aceito que quem conhece sabe. Um axioma ainda por ser provado, mas nem por isso enjeitado.

Quero, voltando às lições aprendidas no meu velho Colégio Estadual Paes de Carvalho, de Belém do Pará, lembrar que a ciência é apenas uma das roupas de que se reveste a apropriação das características de qualquer objeto ou fenômeno. Outras as há, nem mais, nem menos apreciáveis.

O saber haurido nas reflexões filosóficas, se não é científico, não deixa de ser saber. Como também não decai de sua condição de conhecimento a conclusão a que chegam os religiosos, na sua ânsia por oferecer interpretação aos fenômenos com que se ocupam.

Há outros sábios, porém, aos quais raramente concedemos o tratamento dispensado aos que detém outras formas de conhecimento. Refiro-me, especificamente, àqueles que, sem ter passado por uma universidade, sem ter frequentado as sacristias ou integrado academias, fazem da vida o manancial de onde absorvem o conhecimento que lhes dá sabedoria.

É esse conhecimento, ora chamado vulgar, ora denominado tradicional, que devemos considerar, segundo o programado para esta mesa.

Menos do que contrapô-lo às demais formas de conhecer, considero oportuno buscar meios que proporcionem o encontro entre o conhecimento e a sabedoria. E daí encontrar caminhos que nos levem a, respeitando um e outra, apresentar às populações panamazônicas o desenho de uma sociedade capaz de superar seus problemas, evitar que novos problemas ocorram ou que, quando ocorrerem, terão minorados seus maus efeitos.

Dito isso, apresento os expositores que aqui teremos a oportunidade e a felicidade de ouvir e eu, mais que vocês, aprender muito do que sua sabedoria fez e faz com o que conhecem.

Manaus, 06 de novembro de 2014

Prof. José Seráfico - Coordenador da Mesa

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*Seminário Internacional - Construindo os Saberes na Amazônia Continental (2° Encontro Pan-amazônico de Reitores (Manaus, 6 e 7 de novembro de 2014)

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