Mentira e paradoxo

Atualizado: 5 de Jul de 2020

Talvez a frase marcante da patética reunião ministerial de 22 de abril tenha saído da boca do Presidente Jair Bolsonaro. Sem palavrões, destoando do clima. Acabou a brincadeira, disse o Chefe do Poder Executivo, em um dos seus rompantes de Luís XIV. Na cabeça de nenhum brasileiro jamais passou a ideia de que o ex-capitão em algum momento de sua vida tenha tentado brincar. Nem mesmo na infância ele terá tido a oportunidade de ser como costumam ser as crianças sadias, brincalhonas, alegres, de bem com a vida. Inocentes, sobretudo. Pelo que fez, ainda nas fileiras do Exército Nacional, depois na Câmara dos Deputados e, desde 1 de janeiro de 2019, nada poderia ser classificado como brincadeira. Brincam os que não se orientam pelo ódio, pelos preconceitos, pelo desamor à vida, própria e dos outros. Não é o caso. A conduta de Jair Messias Bolsonaro faz supor ser ele dotado de profunda aversão à verdade. Aí talvez esteja a razão de repetir, sempre que pode, expressão com que pensa iludir os desatentos: a verdade triunfará. Pior, quanto mais avança seu governo sem rumo, mais ele rende homenagens à mentira. E atrai os que cultuam a inverdade como valor mais alto, a ponto de alterar registros facilmente constatáveis e comparáveis à alegação. O mais recente episódio envolve o mais fugaz de seus ministros, logo o da Educação. Não soaria exagerado afirmar que Carlos Alberto Decolelli apresentou-se ao Presidente como doutor e pós-doutor pela aguda percepção de que assim ganharia pontos com seu novo chefe. Afinal, falseando a verdade, ganharia a simpatia do Presidente, posto no Planalto em grande medida pelo farto e ilícito uso do que se vem chamando fake-news. Mas não só isso, como registra a crônica política de nossos dias. Refinado estudioso diria estarmos diante de preciso exemplar do momento histórico que contamina o Planeta, a pós-verdade imperando tanto quanto a pandemia. Ainda haverá quem escreva sobre a era da mentira. Ainda vamos ter saudade dos paradoxos.

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