Meios e fins

Foi preciso viver oitenta anos, para ouvir de alguém a defesa firme dos meios, relativamente aos fins. Não que se possa esperar diferente, quando quem o disse rende homenagem à tortura e considera herói o que a pratica. Incabível, por mais que nada surpreendente, é ouvir tão deseducativa grosseria de um portador de mandato popular. Com a agravante de de ter sido pronunciado como quem ocupa o posto de chefe de um dos poderes republicanos, o Executivo. Não discuto aqui o que ficou marcado pelo ex-presidente José Sarney (muitos outros, antes; tantos mais, depois) como a liturgia do cargo. Liturgia não é palavra para ser entendida por quem ignora o significado de respeito, menos ainda por quem tem longa e rica vida de agressão a tudo quanto diz respeito aos direitos humanos. Bípedes todos, nem todos reúnem as condições com que Hannah Arendt qualificou os integrantes da assim chamada Humanidade. Aqui, a comprovação da distância entre aparência e essência. Esta, porque em permanente construção, cultivada ao longo da existência. O fato é que, sempre que os fins, quaisquer sejam eles, justificam o uso de qualquer meio, estaremos mais próximos da selva e das práticas próprias dos animais que as habitam. A cadeia alimentar em pleno funcionamento, enquanto as cadeias do meio urbano aguardam novos e merecidos hóspedes.

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